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A Irmã Morte (como o Chico a chamava) é uma grande amiga. Ela nos ensina uma coisa simples, mas importantíssima: a responsabilidade. Quem me mostrou isso foi o Viktor Frankl, no seu excelente “Man’s Search for Meaning” (Em busca de sentido, em português”. Só porque morremos, porque temos prazo de validade, é que devemos ser responsáveis. Temos um prazo a cumprir, e por isso não podemos ficar na rede. Aliás, só faz sentido medirmos dias, meses, horas, minutos porque um dia morremos, vamos embora. Se vivêssemos para sempre, qual seria a utilidade disso?

O que dura para sempre prescinde do tempo, e esse é o grande segredo da eternidade. O Amor, por exemplo, não foi criado, não tem prazo de validade, ele simplesmente existe. A nossa existência não é simples. Sejamos cristãos, ateus ou da cabala discordiana da sagrada fanta uva, sabemos que somos criaturas, mas que o amor não é. (Essa é a prova racional de que Deus é Amor. Prove que Deus existe, e que é criador e único. Agora prove que o Amor é eterno. Se é eterno, não foi criado, e se não foi criado, é o Deus Criador).

Quando perdemos a noção da morte (e atualmente, pelo menos onde vivo, perdeu-se bastante), tornamo-nos irresponsáveis. Se achamos que viveremos para sempre, não cumprimos com o nosso dever, não encontramos (e aí era onde o Frankl queria chegar) o sentido da nossa vida. Porque ela tem um sentido, e só podemos considerar-nos plenamente libertos quando o encontramos.

Se eu morresse amanhã (já dizia um poeta), eu olharia pra trás e falaria o quê? O que eu poderia dizer que fiz, que cumpri, que ajudei? Deus ia olhar pra minha cara de “me dá uma escala no purgatório” e ia falar: “o purgatório é para os bonzinhos, nem isso você foi. Vai pro inferno, literalmente”. E a ira de Deus seria justa. Não propriamente o medo do inferno, mas a noção de que há Justiça e que um dia morrerei (e pode ser amanhã) que me impele raras vezes para que eu viva dignamente. Deveria eu pensar mais na morte.

Quem acha que viverá para sempre, seja numa auto-enganação, seja não pensando no assunto por medo, seja crendo em baboseiras como a reencarnação (uma maneira de dar alguma cara de possibilidade para a inepta e vagabunda vida pra sempre, ou de afastar o medo da eternidade), perde o aspecto do tempo, e está muito mais sujeito a desperdiçá-lo do que alguém que tem plena consciência da vida única. Há de se lembrar, contudo, que a “vida pra sempre” é bem diferente da vida na eternidade. Esta é a nossa vocação humana, contemplar o tempo, o espaço e a beleza. E, para que possamos cumpri-la, precisamos tomar consciência dela através da ajuda da nossa amiga morte.

Sábado passado foi dia de Santo Expedito. Um problema que tive durante algum tempo na Igreja foi a devoção dos santos. Explico. Aquela coisa de beatas pegarem um santinho e fazer uma “reza milagrosa” não me cheirava bem. Eu não gostava daquilo, de jeito algum. E era só pedir, e depois ir até Aparecida acender uma vela. Não gostava, repito. E, se quer saber, ainda não gosto.

Uma das coisas emblemáticas disso é o “apelido” dos santos: Santo Expedito é o “santo das causas urgentes”. Então, se a sua filha já está ficando velha e ainda não casou, reza pra Santo Expedito! Se a prova é amanhã e você não estudou, reza pra Santo Expedito. E tem o santo casamenteiro, o santo das causas impossíveis, o santo disso, o santo daquilo, e o daquilo outro também. É estranho.

O Padre Euclides, de quem só não puxei mais o saco aqui no blogue que o Julio Lemos, deu uma revolucionada na minha cabeça soberba e botou a devoção aos santos nos trilhos. Os santos são importantes pelo que fizeram: pela marca, pelo sulco que deixaram no mundo; para o Pe. Euclides são importantes pelos seus defeitos e fraquezas.

Hein???

Ah, meu amigo! Vamos por partes. Todos nós temos fraquezas, tentações, vicissitudes. Os santos também tiveram. E a maioria teve muitas quedas, antes e depois da conversão. Estudando como eles lidaram com isso (e nem precisa ser “católico”, basta admirar as virtudes e querer imitá-las), podemos agir semelhantemente.

Não vou citar santo por santo. Há um livro excelente chamado “The saints according to their handwriting” (se você lê italiano, leia o original: il i santi dalla loro scrittura, ou algo assim), do Padre Girolamo Moretti. Já falei dele aqui, é um livro que faz análise (cega) grafológica de escritos de santos, e mostra suas qualidades, defeitos e tendências. Todos os santos foram humanos como nós. É claro que não temos as chagas de Cristo nem delas sai perfume, como São (Padre) Pio de Pietrelcina, mas nem por isso as tentações não o atacavam.

O caso de Santo Expedito, contudo, merece ser citado. Ele era um cara pagão e devasso, como geralmente são os pagãos. Apresentado ao Cristianismo, sentiu-se chamado à conversão. Ele podia deixar pra amanhã, foi o que um corvo falou pra ele: chegou perto dele e começou: “cras”, “cras”, que em latim (ele era soldado romano, latim era sua língua mãe) quer dizer “amanhã”. Ele olhou pro corvo e berrou: “HODIE” (não preciso traduzir, né?).

Por isso ele é o “santo das causas urgentes”. Não só: por se converter, foi chicoteado até as vísceras e depois decapitado. Isso que é martírio. Eu acho de uma mediocridade sem tamanho chegar pra um cara desse e pedir pra ir bem na prova. Mas acho justo e necessário pedir-lhe, por exemplo, inspiração e intercessão pra não deixar pra amanhã as coisas. Foi isso que ele fez, e é nisso que ele pode me inspirar. Posso recorrer a ele para coisas mais medíocres, como recorro a São Bento quando vou entrar em lugares potencialmente perigosos (beco, caminhos escuros, etc.).

Essas coisas me fizeram recobrar a “devoção aos Santos”, mas de uma maneira que considero mais de acordo com “o que Deus quer de nós”. Assim fui compondo o meu “devocionário”. A São José peço dedicação ao trabalho e atenção; a São Bento, que eu cumpra o “ora et labora”; à Virgem Maria, pureza, humildade, obediência; a Santa Bakhita, que eu aceite os sofrimentos que a vida me impõe, a Santo Expedito, que eu vença as tendências de procrastinação e grite “HODIE”. Isso que eles ensinaram com sua vida, com seus momentos de fraqueza e de fortaleza. E é isso o que eu peço em oração para eles. Já disse, é claro que tenho intenções medíocres muitas vezes, mas isso era pra ser exceção, e não regra.

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Um comentário ortogonal: estou em Brasília, e vim para cá de Congonhas na quarta-feira. Entre outros políticos, viajei com Michel Temer, o único cara no mundo que consegue ser de extremo centro.

Por falar em política e em PMDB, o Kassab conseguiu apoio do Ércia, vocês viram (meu tio o chama assim, porque “o resto do nome ele já perdeu faz tempo”)? O Ércia (ou Quércia, se preferirem) é o cara que manda, hoje, no MR-8, que por sua vez publica o fantástico “Hora do Povo“. O jornal soltou um caderno em homenagem ao Stálin ano passado, e quando começou a guerra do Iraque, soltou a seguinte manchete: “Bush invade Iraque contra governo democrático de Saddam”. Maravilha da humanidade.

Essa aliança me deixou muito feliz porque eu poderei ver o HP (e o MR8 ) falando bem do Kassab e do DEM. Essa eu quero ver mesmo, e vou dar muita risada! Mas ainda não foi dessa vez, eles soltaram uma manchete criticando (MUITO levemente, diga-se de passagem) o apoio ao Kassab, preferindo um apoio ao PT. Mas vejam que pérola de jornalismo encontramos no artigo:

“Quércia sempre foi o líder da resistência peemedebista à submissão aos tucanos. Durante os oito anos do desastroso governo de Fernando Henrique, o ex-governador manteve-se na oposição ao neoliberalismo e ao entreguismo, coerente com sua trajetória de identificação com o povo e com as aspirações pelo desenvolvimento nacional (…) Fernando Henrique e Serra saíram do PMDB para fundar o PSDB acusando Quércia, exatamente em virtude de suas qualidades (…): uma política econômica de acordo com os interesses nacionais, a vontade de ver o Brasil como uma grande nação, a promoção do bem-estar do povo e, não menos importante, a competência administrativa”.

Stupendo!

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No Natal eu vou ver o bom velhinho, e por isso comecei a estudar italiano. Se alguém quiser me dar uma força, bater papo em italiano daqui a um mês mais ou menos, quando vou ter uma base para uma conversa de crianças, ou algo assim, eu agradeço. Estou usando um método autodidata, que apesar do título asqueroso, parece muito bom: “O Novo Italiano Sem Esforço”, da editora Assimil (parece que é publicado no Brasil pela E.P.U.). Há outras línguas, todas “O Novo XYZ Sem Esforço”. Já sei, nas três primeiras lições (que tomam apenas dois períodos de 20 minutos a meia hora cada, uma por dia), conjugar o verbo ser/estar e haver/ter, algumas palavras básicas, os elementos constitutivos da pronúncia e algumas palavrinhas chave. (Ademais, o método é tão politicamente incorreto que na lição dois você já aprende a pedir cigarro, isqueiro e assento de fumantes no trem).

Scusi, lei ha una sigaretta?

Longa vida ao Papa, viva tanto ou mais que Pedro!

Um brinde do Papa

Um brinde! E abaixo o puritanismo!

Na quinta-feira fui a São Luis, cujo centro achei semelhante à parte antiga e acabada do centro histórico de Santos. É triste, é um lugar caindo aos pedaços. A cidade não tem cara de capital, parece mais caiçara que muita cidade por aí e, apesar da beleza natural e da beleza que ainda resta em algumas construções antigas, é uma cidade deveras “enfeiada”. O Maranhão é o lugar mais politicamente atrasado do país, é o único lugar que ainda tem um dono. Mesmo sendo um estado de 4 senadores (afinal, Sarney é senador pelo Amapá!), se tem algum benefício político é capitalizado apenas para os políticos. Tem um litoral privilegiado para portos, e uma posição logística excelente (muito mais próximo dos EUA e da Europa que Santos ou Tubarão), mas não há vigor na economia local (muito diferente do que vi em Recife, por exemplo, cidade pujante).

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Eu gosto demais das benesses do progresso. Pegar um avião, botar um iPod na orelha, e abrir um livro comprado no aeroporto, ter a garantia que um corticóide te salvará de uma dor que causava suicídios outrora, é excelente. Mesmo que o livro aberto seja Ortodoxia do Chesterton e a música ouvida seja uma missa de Palestrina (minhas opções), isso só demonstra outra coisa ainda mais fantástica dos tempos atuais: você poder escolher “em que época você quer viver”. Um contemporâneo de Bach, por exemplo, apesar de ter acesso a “música popular” melhor, teria menos chance de escutar música mais antiga do que eu, mesmo em uma sala de concerto.

Mas não boto minha fé no progresso. O progresso não é garantido, não é linear, pode-nos levar a melhor ou a pior. Gosto do que ele me trouxe, gosto demais, mas não o coloco em um altar e lhe presto culto, apenas agradeço às gerações passadas e presentes pela genialidade e pelo trabalho.

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Falando em Ortodoxia do Chesterton, comprei o livro meio que “no susto”. Ao passar pela livraria Laselva, no aeroporto de São Luis, olhei a vitrine como sempre olho, para saber quais são os livros de auto-ajuda do momento e vi, em destaque num canto da vitrine lateral, “Ortodoxia”. “Não pode ser o do Chesterton” — pensei — e, ao ver que era (e custava menos de 20 reais), entrei, chamei um atendente — “quero o Ortodoxia do Chesterton” — que ficou meio perdido, mostrei-lhe o livro na vitrine, e ele pegou uma cópia para mim em uma das bancadas da frente. Surpreendeu-me realmente e positivamente ver uma edição brasileira do livro, e não pude me furtar a comprá-lo. Para fugir do meu vício de comprar e botar na estante, comecei a lê-lo quase imediatamente, deixando para trás a leitura que havia começado no aeroporto de São Luis.

Li os prefácios no aeroporto e aqui no avião (onde fiz uma pequena pausa para fazer os meus relatórios de horas e despesas e escrever estas linhas), os dois primeiros capítulos. Já recomendo. O livro está tabelado a R$19,90 — uma pechincha — e você encontra com descontos por aí (para clientes do Mais Cultura está a 17,91), a edição é bacaninha e a leitura é leve mas profunda. Assim que cessar a turbulência voltarei para ele (ou para a carta Encíclica Spe Salvi, de Bento XVI — o livro que comecei a ler em São Luis –, que também recomendo e pode ser baixada gratuitamente do site do Vaticano ou comprada a preços módicos em livrarias, em edição conjunta da Paulus e da Loyola), pois estou instigado com sua entrada no tema com a questão da loucura e da razão.

Chesterton diz, com maestria, que o louco, o lunático, não é aquele que perdeu a razão, mas aquele que perdeu tudo menos a razão. E diz que só pode apreciar a loucura aqueles que são sensatos. Para o abilolado, a loucura é absolutamente normal, e ele não vê naquilo graça alguma. Por isso os poetas estão distantes da loucura: ao abrir mão dos excessos de razão, imaginam, e imaginando fogem do que é normal, correm muito menos risco de serem loucos. Não dá para concentrar 20 páginas de um mestre em metade de um parágrafo de um pedante um pouquinho culto da Tatâmbia como eu, vá lá e leia. Se não quiser gastar, deve haver e-books legais por aí — a obra é centenária, e é por essa comemoração que foi publicada no Brasil.

É isso aí, vou tentar escrever com mais freqüência (agora principalmente que parei de passar mal em aviões, há um tempo bom a ser aproveitado aí) de novo! Obrigado por me ler e até mais!

ou: πανκαταπυγια - δευτερος τομος

Neste último fim de semana tive um dos episódios mais dolorosos da minha vida, e dentre eles, o mais desesperador. Em 2001, tive apendicite, que por horas não me leva a complicações possivelmente letais. Em 2004, arranquei um ciso, e a picada da anestesia foi a dor mais intensa que já senti. Em 2006 tive cálculo renal, uma dor pior que a da apendicite, mas expelido rapidamente, pude obter o alívio com analgésicos e relaxantes. Na última semana, provavelmente causada por mudanças bruscas de temperatura, adquiri uma nevralgia do nervo facial esquerdo.

A nevralgia é uma inflamação dolorosa de um nervo. O nervo facial é vizinho do nervo trigêmeo e a nevralgia do trigêmeo, ou trigeminalgia, é conhecida como “doença do suicídio”, pois leva as pessoas a cometerem suicídio desesperadas pela dor. A minha nevralgia, graças a Deus, foi mais leve. O nervo facial dói menos, mas é igualmente desesperador. Não vou contar todo o meu itinerário hospitalar, mas digo que foi uma barra. Pouco antes de ser diagnosticado definitivamente, tudo que eu queria era que me dopassem, estava quase a implorar por isso, enquanto não conseguisse uma solução definitiva.

Contam da trigeminalgia que muitos são levados a arrancar dentes (às vezes metade da arcada), crendo que é uma dor de dentes. Passei por isso, por um bom tempo pensei se tratar de uma dor de dentes, e o desespero era tanto que eu aceitaria que arrancassem alguns deles, passando pelo doloroso episódio anestésico que já citei, para me livrar dela. Teria uma dor mais intensa ainda, mas breve, e que me curaria.

Há dores que curam. A picada de uma anestesia, a extração de dentes. Na vida, há outras dores mais sutis, que também são extrações. Ao falar de Amor, São Josemaria Escrivá relata de um discípulo que o escreveu dizendo que tinha “dor de dentes de amor”. O Santo disse que compreendia, e que gostaria que o discípulo o deixasse “fazer umas extrações”.

A dor de não amar verdadeiramente não é pungente como uma nevralgia ou a de um dente torto. E por isso não fazemos as devidas extrações, extrações necessárias para o reto caminho. Amar não é uma besteira de novela, não é um sentimento, acho que já falei demais disso por aqui, e o Julio falou melhor do que eu.

Só espero que ninguém (eu incluso) tenha que passar pelo desespero de uma “nevralgia da alma” para resolver o problema.

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Há muito o que falar de minhas recentes viagens, mas que fique claro: se há cidades com cultura no Brasil, essas são o Rio de Janeiro e Recife, além da óbvia São Paulo.

Aliás, o Rio de Janeiro é de uma elegância ímpar, parece que tudo lá cai bem. Os prédios geminados de Copacabana, ou as edificações antigas (e elegantérrimas) de Ipanema e da Urca, ou as Universidades da Praia Vermelha, tudo lá parece adequado, caindo bem, de acordo com a época construída. O prédio da UFRJ é um verdadeiro prédio universitário, não as caixas de concreto que vemos em São Paulo. E tem uma capela de invejar a mais antiga das PUCs.

Já Recife é mais high-tech. Em Recife há gruas, prédios e pobreza. É a Dubai brasileira, e é incrível como se percebe a diferença da colonização holandesa para a portuguesa sem saber descrever a diferença. É sutil, mas perceptível.

Agora Brasília é apenas uma coisa: moderna. Sendo construída na década de 60, tudo lá tem a cara da década de 70. Além disso, você tem a sensação de que tudo lá é estatal, é desesperador.

Bons tempos em que só os rebeldes usavam tatuagem. Era preciso coragem, era doloroso e uma marca para a vida. Olhavamos para os tatuados e dizíamos: você teve coragem para fazer essa marca para toda a sua vida? Você envelhecerá, sua pele enrugará, e a tatuagem ficará feia. Geralmente recebíamos como resposta algo como: “eu sabia de tudo isso quando fiz a tatuagem”. Hoje em dia vemos “mocinhas de família” com nucas borboletadas e calcanhares estrelados. Se fizermos as mesmas perguntas que fizemos para o rebelde, receberemos um olhar de espanto ou, se a moça for mais inteligente, a esperança no progresso: a cirurgia destatuadora existirá quando ela estiver enfatuada.

Quando o Júlio diz que o casamento é para rebeldes, é nisso que eu penso. Nossa pele enrugará, perderemos o desejo, enfatuaremo-nos um do outro. E estamos marcados para sempre com o matrimônio. Os covardes dos anos 40 alimentavam a esperança na cirurgia descasadora: o divórcio. Ele veio a existir e o casamento, assim como a tatuagem, perdeu a graça, virou modinha. Só quem casa para sempre tem o prazer que aqueles rebeldes tatuados de 20 anos atrás tinham. Numa dimensão muito maior e mais profunda — é bom ressaltar.

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A minha perda de tempo favorita, Frets on Fire (uma espécie de Guitar Hero para jogar no teclado do computador), tem um sistema de pontuação simples: cada nota que você acerta vale 50 pontos. Se for uma nota longa, valerá mais. Conforme você acerta mais notas em seqüência você vai ganhando multiplicadores: suas notas passam a valer o dobro, o triplo, o quádruplo. Se errar, perde os multiplicadores. Sendo assim, se você erra 10 notas em seqüência você perde menos pontos do que se errar 10 notas espalhadas pela canção.

As músicas em geral tem bases chatas e solos difíceis, por exemplo, Cowboys from Hell do Pantera. Já acertei o solo inteiro, mas sempre erro a base. Quando vou melhor na base e pior no solo, consigo mais pontos que com um solo perfeito e diversos erros na base.

E isso é certo: um ato de heroísmo não compensa uma vida medíocre. O heroísmo diário, aquele de acertar o que não chama a atenção, vale mais pontos no fim das contas. Acertar aquele solo inteiro às vezes ajuda a minha pontuação a não ser tão baixa, mas eu nem chego a marcar uma pontuação digna de figurar entre as minhas melhores. Teresa de Lisieux vale mais que muitos heróis. Viveu o chato e invisível heroísmo diário. Ninguém viu o solo, a música que ela escolheu tocar não tinha um: foi o jeito que, na sua humildade, escolheu para ser perfeita.

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Do I look like a puritan? Um amigo achou estranho o fato de conversar sobre cigarro e beber na maior sem-cerimônia. Expliquei para ele que eu não era um puritano, mas preferia não ter que explicar. Como alguém que toca “Cowboys from Hell” pode ser puritano?

Aliás, tenho uma estratégia de marketing para os centros ascéticos: deveriam remodelar os hábitos para que ostentassem a seguinte mensagem: “Quer ser feliz? Pergunte-me como”.

Algumas pessoas mais novas do que eu não chegaram a brincar de “Polícia e Ladrão”, mas a brincadeira é bastante simples. Um grupo é “a polícia” e outro grupo “o ladrão”. O objetivo da polícia é pegar o ladrão e do ladrão fugir da polícia. É mais uma variação do “pega-pega” e do “esconde-esconde”. Uma brincadeira à moda antiga em que o objetivo é correr pela escola, pelo parque, e ter uma desculpa para isso, um subterfúgio, um pano de fundo racional, de uma racionalidade infantil, é claro! Há algumas variações, com revólveres de dedo et cetera.

Brincar de polícia e ladrão além de ser saudável (é um exercício físico, coisa cada vez mais rara entre os infantes) ajuda a consolidar alguns valores: de que é dever da polícia pegar o ladrão, e que o ladrão vai querer fugir da polícia se não quiser ser preso. Ensina justiça e tolerância: a verdadeira, que consiste em ver o outro lado, não defendê-lo sabendo do seu erro. Eu rezo para que nenhum juiz resolva proibir a brincadeira de “polícia e ladrão” (como proibiram as armas de plástico, o que é, pelo menos, compreensível).

Apesar de imaginar o contrário, talvez alguém que me leia nunca tenha jogado “Counter Strike”. Este jogo, que roda em cima de outro jogo (o Half-Life) consiste em uma coisa muito simples: formam-se duas equipes: terroristas e contra-terroristas. O objetivo dos terroristas é ou explodir uma bomba, ou manter reféns, ou outros que eu não lembro. O objetivo dos contra-terroristas é impedir que a bomba seja “plantada” ou desarmá-la, resgatar os reféns mantidos pelos terroristas, et cetera. As caras são diferentes, os gestos são diferentes e até as armas são diferentes. Quem joga como terrorista agora pode jogar como contra-terrorista na próxima. É um polícia e ladrão do século XXI, no computador. Dizer que isso incentiva “táticas de guerrilha” é o mesmo que dizer que “polícia e ladrão” incentiva a insubordinação, ou mesmo o roubo. Chamar o jogo de violento é fechar aos olhos ao que passa no cinema, não estamos mais na década de 30, oras! Especular que o jogo gera empatia pelos terroristas é o mesmo que banir “O Poderoso Chefão” por gerar empatia aos mafiosos (eu até achei Vito Corleone bacana) ou “Meu nome é Johny” aos traficantes “playboys”. Assim sendo, deveríamos banir metade do cinema e da literatura nacional, que faz apologia do banditismo às claras.

Mas isso é besteira minha. O meritíssimo Carlos Alberto Simões de Tomaz decreta o banimento a um jogo inofensivo porque induz à subversão da ordem social. Por que não proíbem as apologias da maconha em músicas? Aposto o meu órgão sexual que muito mais gente subverteu a ordem social por causa de “Planet Hemp”, “Gabriel, o pensador(sic)”, “Skank” e “O Rappa” do que por Counter Strike, geralmente jogado por nerds babões (como eu) que sofrem para matar uma barata. Mas não, pregar que se fume e venda uma substância ilícita, pode. (Agora, cantar “eu bebo sim, e estou vivendo” é politicamente incorreto, fumar cigarro de tabaco, pior ainda, defendê-lo então, logo dará cadeia).

“Sr. juiz! Pare agora!!!”. Presta atenção no que faz mal à sociedade!!! Dos garotos que entram no tráfico todo dia, aposto que nenhum jogou Counter Strike. Há gente matando, trucidando, abortando, viciando, e suas meritíssimas não fazem nada. Agora fazem perder tempo de agentes de justiça com uma medida que só fará tirar uma diversão de jovens sedentários. Fora da lan house, de repente eles encontram um “bagulhinho bom” ou uma “bala da boa”. A culpa será sua. Ademais, se sua meritíssima sempre perdia quando brincava de polícia e ladrão, a minha diversão eletrônica não tem nada a ver com isso. Vá enxugar gelo, perde só o seu tempo.

Post-scriptum:

1) Alguns dizem que o motivo para a proibição do jogo é um cenário no Rio de Janeiro, no qual os terroristas (traficantes) seqüestraram agentes da ONU e os contra-terroristas (policiais, mas ia ser bacana fazer uma roupa de BOPE pra eles) têm que resgatá-los e são recebidos a bala. Já joguei, e é muito bem feito, toca samba de maconheiro e funk de criminoso no fundo. Se isso é motivo para proibir, vamos proibir o Jornal Nacional!

2) Meu amigo Leonardo Lopes, o tio Leo, matou a charada: “Essa é a vantagem de ser juiz… você nao quer ver seu filho jogando CS (Counter Strike), proíbe que o país inteiro jogue…”

O ano começa com uma guerra entre as Satanistas pelo Dever de Matar (SDM ou SaDô-M), que se auto-intitulam “Católicas pelo Direito de Decidir (CDD)” e a Verdadeira Igreja. Basicamente, através de um contato na produtora, elas conseguiram colocar um depoimento no vídeo da Campanha da Fraternidade da CNBB deste ano, cujo tema é justamente a defesa da vida (tendo o anti-abortismo como pauta principal). A CNBB mandou cortar sua participação depois de receber reclamações de Fiéis (com F maiúsculo), retirar todos os vídeos e relançar o DVD limpo. Mas parece que o vídeo, mesmo sem as SDM, não é lá muito bom… Obra da irmã gêmea má da CNBB: CNBdoB (crédito da piada a Wagner Luís, do blogue “O Possível e o Extraordinário“). Parece que este artigo resume bem a situação (linque: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/brasil/conteudo.phtml?tl=1&id=729031&tit=DVD-traz-criticas-a-Igreja-Catolica-e-defesa-ao-aborto).

O supra citado “O Possível e o Extaordinário” e o site do pró-vida de Anápolis estão com uma documentação muito boa a respeito do tema.

O que me interessa aqui, e me motiva a publicar este post, é indicar textos que já saíram pressionando a CNBB, e a Sociedade do Verbo Divino para que tomem providências enérgicas e imediatas e manifestos de grupos católicos sobre o tema. O que segue pode receber novos linques nos próximos dias, então fique atento.

Manifesto da Sociedade Católica:

http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=77

Carta de Pedroso, Moura e Murat aos Verbitas:

http://blog.veritatis.com.br/2008/01/carta-aberta-aos-verbitas.html

Carta do “Veritatis Splendor” à CNBB:

http://www.veritatis.com.br/article/4707 

Mais por vir…

O Itamaraty está promovendo uma “democratização no acesso” à carreira de diplomata. É isso aí, viva a revolução bolivariana nas relações internacionais! Afinal, Merquior e Meira Penna não foram bons o suficiente. Precisamos de gente com mais conhecimento das massas, né?

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Se você quer acompanhar as prévias para as eleições presidenciais dos EUA, recomendo o site “Electoral Vote“, que traz todos os dados (pesquisa, resultados) tanto de democratas quanto de republicanos. Na época das eleições ele faz também estimativas de quem ganhará baseado nas pesquisas e nos resultados já apurados. Vale a pena colocar como bookmark.

Papa-batismo-2008

Este no meio, ajoelhado, é o Papa (não, não é Paulo VI nem João XXIII, nem Pio XII, nem nenhum anterior, é Bento XVI mesmo), celebrando uma Missa, no mesmo rito em que celebramos em nossas paróquias. O ano é 2008.

Vendo uma coisa sublime dessas, dá até para virar “progressista” e afirmar que o progresso acompanha os tempos: quanto posterior, melhor. Mas eu prefiro dizer que essa foi a melhor maneira que o Papa encontrou para dizer: “Feliz Ano Novo”

Se você tem orkut e abriu-o recentemente, muito provavelmente caiu no “vírus” do orkut. Vou tentar explicar como funciona e como se livrar, caso ainda você não tenha caído.

Há algum tempo, o orkut permite que você coloque código HTML em scraps: o código que é usado para escrever páginas internet. Entre outras coisas, você pode colocar animações flash — vídeos do youtube, slides do flickr, etc. Acontece que o flash é mais poderoso que isso.

O vírus do orkut funciona da seguinte maneira: você recebe um scrap que tem uma animação flash. Essa animação flash escreve um código Javascript. O código javascript controla algumas coisas no seu browser: permite, por exemplo, que você use teclas de atalho no Gmail. Por isso ele é muito poderoso. Esse código javascript pode ser visto aqui: http://files.myopera.com/virusdoorkut/files/virus.js e o que ele faz é o seguinte: ele manda uma mensagem para todos os seus amigos com o mesmo conteúdo, ou seja, com o mesmo “vírus”. E assim, em cadeia, até que todo o orkut tenha sido atingido. Isso entra em ciclo e o orkut, para se proteger, bloqueia os usuários com atividade excessiva. Sendo assim, pode ser que você não esteja conseguindo fazer nada no orkut: isso não é o vírus que faz (fique tranqüilo!), ele apenas causou isso de maneira secundária.

Se você ainda não foi infectado, há algumas profilaxias possíveis:

  1. Não abra o seu scrapbook: você não será atingido pelo “vírus”;
  2. Desabilite no seu navegador os scripts javascript: o “vírus” não terá efeito;
  3. Apague o plugin flash ou, se o seu navegador permitir (no Firefox ou Iceweasel, use o plugin Flashblock, disponível em https://addons.mozilla.org/en-US/firefox/addon/433) desabilite-o: o “vírus” não conseguirá escrever o código Javascript

Espero que o povo do orkut conserte logo as falhas e apague automaticamente essas mensagens. Eu é que não vou querer apagar todos os 15000 scraps que recebi e mandei por causa disso na mão.

Update:

O próprio autor do vírus (veja que amável é esse desocupado) ensina a se proteger do vírus. Tem algumas novidades que eu não disse aqui, mas não me parece que ele esteja mentindo:

http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=44001818&tid=2572705175879943750

Domingo passado eu fui à missa no Mosteiro de São Bento em São Paulo (Algumas fotos em: http://www.flickr.com/photos/pereira/sets/72157603444236637/ ). Não teve palmas nem canções animadas, embora a homilia tenha sido excelente, o pregador não era dotado de grande oratória. Contudo, a liturgia foi seguida à risca: todos os paramentos necessários, o rito fiel ao missal, e o canto gregoriano e o órgão, que seguiram a tradição litúrgica. Cheguei à missa entre 20 e 15 minutos antes de seu início, e fiquei de pé. A nave estava lotada. Depois do “Deo Gratias”, saí e passei por outras igrejas da região (há várias pelo centro de São Paulo) em que estavam sendo celebradas missas, também. Todas com meia dúzia de gatos pingados. Será que essa “missa popular” que resolveram inventar é tão popular assim? Missas com padres conservadores, que seguem as rubricas, que não inventam nada, que não “descobrem” que Jesus era um revolucionário, são as mais cheias. Essa idéia de missa (im)popular quase acabou com o catolicismo no Brasil. E, se não acabou por completo, foi unicamente por Graça do Espírito Santo.

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O patriotismo, sob um olhar cético e moderno, pode parecer inútil. Mas ele vem de uma realidade muito simples: o amor ao próximo. O amor nasce na família, e aumenta para os vizinhos, o bairro, a cidade, a nação. Mas a nação tem um algo a mais: não é apenas a proximidade. A proximidade é muito importante, basta ver os estados de fronteira (Rio Grande do Sul, por exemplo) que às vezes se identificam mais com os estrangeiros vizinhos que com o restante do país (no nosso exemplo, argentinos e uruguaios, outros gauchos). Mas a nação tem algo mais que une: a língua e a cultura. O que me une a um amazonense é Machado de Assis e a língua portuguesa. Se as variantes regionais se tornarem dialetos, perdemos a nossa ligação. O conceito de nação é muito mais forte que o de cidade ou província, pois este último delimita apenas uma região ou, no máximo, uma sub-cultura.

Mas há também aqueles que fazem um fetiche do patriotismo, obrigando o amor e a subserviência a todos os rumos do país. Ora, voltemos à vizinhança, se eu sair de um prédio e for morar em outro eu não estou “traindo” aquele condomínio, apenas, descontente, preferi buscar morada em outro lugar! Ainda assim, poderei manter laços naquele lugar. O mesmo vale para quem sai de um país e vai viver em outro. E, no outro, também deve nutrir um certo amor à pátria que o acolheu. Simples assim.

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O aprendizado das virtudes não é muito diferente do aprendizado de matemática. Quando aprendemos equações do segundo grau, fomos ensinados que devíamos usar aquela fórmula maluca. Alguns livros até davam a demonstração, geralmente ininteligível para uma criança brasileira, mas o que interessava era decorar.

Depois de decorar que bê quadrado mais quatro á cê era o delta, e que x era igual à menos bê mais ou menos raiz de delta sobre dois á, ou enquanto e para fazermos isso, íamos aos exercícios. Ficávamos, mecanicamente, repetindo aquele gesto. Era artificial, não acreditávamos muito, mas funcionava e dava resultado. Com o tempo, ganhávamos desenvoltura e podíamos partir para os problemas, aplicações “quase reais” daquilo que tínhamos aprendido.

Quando queremos desenvolver uma virtude, o processo é mais ou menos o mesmo. Tomemos a humildade. Se queremos ser humildes, temos que começar por aquela humildade forçada: “eu não presto”, “eu nunca consegui isso ou aquilo”, “eu não sou digno de amarrar as suas sandálias”. Repetimos mecanicamente, sem entender por que o fazemos, apenas com nossa mente voltada para aquele bem que queremos. Depois vamos para um menos forçado (e geralmente muito real): “se sou melhor que fulano, isso tem um motivo que não é mérito meu, se ele tivesse a mesma situação, ele seria muito melhor”. Com o tempo, podemos ir para os problemas: ser humildes, verdadeiramente humildes em toda a nossa vivência.

Até pode parecer estranho fazer com o amor (ou outra virtude qualquer) o que se fez com a fórmula de Bhaskara. Mas, se perdermos aquela mania infantil de perguntar “por quê” para tudo, com a confiança nos nossos propósitos e medir, a posteriori, a eficácia dos métodos, podemos ganhar muito e perder pouco.

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(This is a commentary to Mr. Lemos — IVLIVS AMANTIS :)

O amor não é um sentimento, mas o simples: “querer o bem do outro”[1,2]. Esse querer-bem é composto, contudo, por uma miríade de sentimentos[2]. E não há bem maior que ser salvo, alcançar a santidade e o Paraíso. Então, quando Julio deseja “Que este homem seja santo!”[3] ao transeunte, ele demonstra, por esse homem desconhecido, o maior amor que existe. Não sou eu quem digo, mas ele mesmo[3]!

Contudo, o caminho para se salvar é aquele velho conhecido amar “cristicamente” o outro[4]. E, o amor crístico, é o amor perfeito: o amor que quer a salvação. Aí surge a dimensão social da Salvação: para salvar-se é preciso querer salvar o outro, os outros, a humanidade inteira. São Paulo assinou sua sentença de salvação quando disse, com honestidade, que aceitaria ir ao inferno para que os demais fossem salvos.[4]. Quem se salva quase sempre leva alguém, alguns, junto. É esse o aspecto real, lógico e visível do que chamamos “Misericórdia de Deus”.

Referências:

[1] Bento XVI, PP: Carta Encíclica Deus Caritas Est.

[2] de Carvalho, Olavo: O Caráter como forma pura da personalidade.

[3]Feliz Nova Dieta: disponível em http://julio-lemos.blogspot.com

[4]Bíblia Sagrada, tradução da Vulgata Latina pelo Padre Antônio Pereira de Figueiredo

Um amigo meu (não vou citar seu nome mas isso tornar-se-á público em breve) teve uma idéia aleatória e inconseqüente (como toda idéia aleatória) num dia de falta de luz. Morador da Moradia Estudantil da Unicamp (conjunto que compõe-se de várias casinhas com sala, quarto, cozinha e banheiro povoadas por 4 pessoas que lá moram gratuitamente, voltada para estudantes menos favorecidos e gente que quer economizar pra comprar um carrão — viva o Estado!), ao faltar luz, resolveu sair com algumas pessoas, vestido de profeta (ou de Jesus Cristo mesmo, não sei), com uma moça a seu lado com um lençol feito véu branco a anunciar que “O fim está próximo”, “Arrependam-se”, “A culpa é de vocês”, entre outros.

10 anos, alguns jovens lançavam O Indivíduo, que contava com o artigo “A negra noite da consciência“, que combatia o “Dia da Consciência Negra”. Foram chamados de “racistas” pelos melano-fascistas (go Greek if you didn’t catch it). Nunca fui fã deles, nunca fui leitor assíduo, às vezes recomendavam-me um artigo e eu lia. Sempre eu gostava, mas há outros estilos que eu prefiro. Quem me lê constantemente sabe quem são os meus favoritos. Retomo, estou disperso demais: os jovens que lançavam “O Indivíduo” na PUC do Rio foram perseguidos, caluniados e Olavo de Carvalho veio em seu socorro com diversos artigos em jornais que foram posteriormente publicados no volume “Imbecil Coletivo II: A longa marcha da vaca para o brejo e os filhos da PUC”. Eles eram os filhos da PUC.

Volto ao meu amigo. Em uma das casas em que ele parou, acabara de terminar uma reunião de um “coletivo do movimento negro”. Sem saber desse fato relevantíssimo, gritou “A culpa é de vocês”. A moça que conduzira a reunião saiu de sua casa, viu-os e, achando em sua paranóia que a moça de lençol branco simbolizava uma espécie de KKK, inflou-se de cólera anti-racista e pediu (ou pedirá, não estou ao certo) a abertura de uma comissão de sindicância (na verdade, provavelmente será uma comissão de processo sumário, que geralmente é chamada de sindicância, mas sindicâncias são apenas para funcionários) para puni-lo. Este querido sabiamente trouxe toda a responsabilidade para si.

É incrível a “mania de perseguição” que se desenvolve nesses movimentos de minoria:

– Machado de Assis é o maior autor negro da história

– Seu racista! (…)

Ela tornou-se lésbica porque ficou desiludida dos homens.

– Seu homofóbico!! (…)

– A natureza feminina é voltada aos cuidados do lar. Isso não impede… — no que sou interrompido:

– Seu machista!!!

O pior é que até pessoas que não consideram racista o seu ato condenam-o por motivos estapafúrdios. Mas vejam — volto novamente de uma dispersão –, esses movimentos de minorias estão criando uma predisposição à guerra, seja de raças, de sexos, de credos! Todos os negros “politizados” passam a ver nos brancos (e meu amigo em questão está muito longe de ser um caucasiano!) inimigos em potencial, descendentes de escravizadores (ah, se eu fosse levar meu parco sangue semita a sério…). Os gays, lésbicas e todas essas coisas aí vêem o “moralista” e acham que ele os odeia! Viva a tolerância, viva a sociedade plural, não devia ser por isso que os movimentos de minorias deveriam lutar?

E a pergunta que fica: como posso ter orgulho de algo que me foi imputado?

No dia da consciência negra, que foi ontem, o ideal seria lembrar dos grandes homens e mulheres negros da história. No lugar disso, lembram dos medíocres. Além disso, um grande mulato (como a maioria dos grandes brasileiros: quase todos eram mulatos) seria lembrado em que dia? Não podemos lembrar dos mulatos no dia da consciência negra, negros eles não são. Nem brancos. Teríamos que criar o dia da consciência mulata, o dia da consciência mameluca, o dia da consciência cafuza, o dia da consciência oriental, o dia da consciência indígena, e por aí vai. Não dá, portanto, para lembrar de Machado de Assis ou Lima Barreto neste dia. Mas eu tenho, aqui debaixo da manga, um exemplo de consciência negra: uma mulher que, independentemente de cor, origem, situação social, econômica, deixou um exemplo para as gerações futuras e está, segundo a crença da Igreja, no céu no momento: Irmã Josefina Bakhita, ou simplesmente Santa Bakhita.

Santa Josefina BakhitaNascida no Sudão, Santa Bakhita foi raptada aos 10 anos de idade para ser escrava. Sofreu diversos maus tratos e o trauma fez-lhe esquecer o próprio nome: Bakhita é o nome que os seus senhores lhe deram. Em árabe significa afortunada. Foi escrava no Sudão e, depois de muito tempo, foi comprada por um cônsul italiano, o primeiro senhor que a tratou com respeito. Quando do fim de sua missão diplomática, Bakhita pediu-lhe que a levasse consigo para a Itália. Na Itália, o amor e a proteção que recebeu de Deus sentiu a necessidade de retribuir. Tornou-se irmã canossiana. Ela mesma escreveu:

“Irmãos, se estivesse de joelho por toda a minha vida, não diria nunca a minha gratidão ao Bom Deus. Estive raciada, batida, perseguida…entravi a liberdade e fui pretendida novamente, amarada a cepos e correntes… O meu corpo é toda uma cicatriz. Fui respeitada pelos leões da floresta, no entanto os homens me prendiam outra vez e me vendiam como coisa.
Todavia senti-me protegida por um Ser Superior, apesar eu não conhecê-lo. Sentia-o no coração sem saber quem Ele fosse. Porém, agora o conheço e sou toda dele.”

Conta-se que Bakhita freqüentemente orava pelos seus antigos senhores, não os culpando pelos atos que fizeram contra ela, já que eles não conheciam o Senhor, que Bakhita carinhosamente chamava de “Patrão”. No fim da vida, ela foi atormentada pela lembrança da escravidão e via-se presa por correntes. Suas últimas palavras foram “Nossa Senhora!”. Cativou a muitos, era conhecida como “Irmã Morena”, e o carinho que distribuiu foi retribuído na hora de sua morte: vários vieram passar com ela nos seus últimos momentos na terra.

Santa Bakhita jamais se justificou, nunca disse que sua oração era melhor ou pior por ter sido escrava, ou por ser negra. Soube fazer, de sua vida, de seu sofrimento, exemplo, carinho e santidade.

Referências:

O pecado está em toda a parte, frutifica entre religiosos e leigos, entre fariseus e publicanos. Jesus nos mostra isso claramente no apedrejamento da adúltera. Aqueles homens, cheios de furor justiceiro, vendo que são também pecadores, retiram-se, começando do mais velho. O pecado, esquece-se a mídia e muita gente, também está nas igrejas, nas congregações, e nas associações de leigos.

Há algum tempo, não muito, imagino que uns 3 ou 4 anos, houve um furor relacionado ao Opus Dei: saiu um livro chamado “Opus Dei — Os bastidores”, que conta histórias terríveis. O linque para o site do livro, com alguns trechos, é este: http://www.jeanlauand.com/page0.html. Verídicas ou não as estórias narradas, não é esse o meu escopo. Minha experiência com a Obra (maneira que alguns chamam o Opus Dei) é pequena, assisti a algumas palestras e um curso em sedes dispersas, e conheci alguns membros.

Se ligamos esses acontecimentos narrados, caso verídicos, ao pecado do homem, a história termina aí: conhecemos o tipo de pecado a que estão mais propensos os membros da Obra. Cada modo de vida dá uma propensão a uns ou outros pecados, e isso é natural. Contudo, o contexto em que se insere o livro (uma fundação chamada Opus Livre, copiada da espanhola Opus Libros) pretende imputar essas falhas estruturalmente ao Opus Dei, e não a seus membros. Os problemas que ocorrem seriam, para essas pessoas, causados pelo que se constitui o Opus Dei.

Para quem não conhece o Catolicismo, faço um pequeno parêntese: quando Roma declara que um homem é santo, isso significa que ele já alcançou a Salvação, já contempla, agora e pela eternidade, a face de Jesus Cristo. A Igreja dá esse reconhecimento para pessoas que deixaram as marcas de sua santidade na terra. São Josémaria Escrivá foi declarado santo pelo mesmo motivo que todos os outros, e a marca de sua santidade é o Opus Dei.

É impossível dizer que o Opus Dei é “podre”, “ruim em si”, sem com isso discordar de Roma. A contrariedade à obra se converte, por um silogismo simples, em contrariedade ao catolicismo. Pois, se a obra que santificou um homem é ruim, ele não é santo, e portanto a Igreja erra. Se a Igreja erra, eu não posso crer nela, ter fé. Logo não posso ser católico. Portanto, quem diz defender a Igreja e atacar o Opus Dei ou está mentindo, ou foi enganado.

Reitero: não conheço o Opus Dei, mas quanto mais conheço São Josemaria Escrivá, mais tenho certeza de que é um dos maiores santos. Tenho poucas dúvidas de que será decretado doutor da Igreja em breve. E, para ilustrar, adiciono aqui dois vídeos:

http://www.opusdei.org.br/art.php?p=24905

http://www.opusdei.org.br/art.php?p=24621

Também, se quiser ler os livros de São Josemaria, há um site que os disponibiliza integralmente, sem custo, em Português e outras línguas. Comecei a ler o “Caminho”, e recomendo vivamente. Cá está o site:

http://www.escrivaworks.org.br/

São Tomás de Aquino nos ensina que Deus nos dá duas energias fortíssimas: a ira e o έ̔ρος (eros). Com a ira podemos tirar força de onde não existe, podemos nos insuflar contra o mal e fazer atos heróicos que não nos seriam possíveis em nosso “eu comum”. O senso comum já nos diz que o raivoso se transforma. O uso correto, contudo, da cólera é contra o mal, e não contra o mau. O ódio se faz útil quando não é voltado para o malfeitor. O malfeitor pode se converter, e o ódio a ele se torna um elemento ruim. O mal sempre será mau, e a Tradição nos diz que não pode amar o bem aquele que não odeia primeiro o mal.

Uma analogia riquíssima vale para essas energias: entendamo-las como a água. Se a água fica presa em barragens, é tão forte que acaba por destruí-las, para não destruí-las, precisa de uma válvula de escape, que nos faz perdê-la. Se a água vai para onde quer, provoca destruição, catástrofe. Se a água é canalizada ela traz a vida e o bem. Voltemos à ira: se guardamos nossa raiva, precisamos de uma válvula de escape (um saco de pancadas, por exemplo) e nossa raiva não serviu para nada; poderia ser pior, poderíamos explodir: e explodindo causaríamos destruição! Todo mundo sabe como são ruins os “esquentadinhos”. Se, por outro lado, canalizamos nossa cólera, poderemos combater as injustiças, empurrar o carro do nosso amigo, encher de tapas e trazer de volta à realidade uma pessoa que esteja ficando maluca.

Esta coleção de artigos fala da lascívia, é isso que significa πανκαταπυγία. ( πυγή significa “anca”, “nádega” (daí calipígia). κατά é, entre outras coisas, o movimento de cima para baixo (daí catarse, catatônico). καταπυγή significa, literalmente, “nádega que vai de cima para baixo”, ou seja, sodomita. Esse era um insulto mais ou menos grave na Grécia (contrariando todo o consenso entre os professores de história que dizem: na época, todo mundo era gay). Desse insulto, adicionando o prefixo παν (tudo, daí panamericano, panteísmo, etc.), têm-se o grego para “lascivo”. Coloquei um ια no fim, e pronto. ) Mas, se no senso comum a idéia que se têm de ira é idêntica à da Tradição, quanto ao eros isso não vale. E agora peguem tudo que eu falei da ira, e apliquem, strictu sensu, ao eros.

Vamos por partes: quem se “reprime” demais no sexo, acaba explodindo. Acho que nem os puritanos discordam disso. Ou então, precisa de uma válvula de escape: pornografia, masturbação. Quem explode: os tarados, estupradores, pedófilos são malvistos também, sabe-se que eles não vivem de maneira sadia a sua sexualidade (com exceção talvez para o jovem “pega todo mundo”, que tem até pose de bom moço). Então como “canalizar” o eros? A resposta natural é: monogamia.

Eu defendo a monogamia mesmo para os não-crentes. Eu poderia tratar aqui de como o sacramento do Matrimônio é importante, mas a monogamia é mais de 50% da sexualidade sadia. Contudo, e isso é um dos elementos principais da situação lasciva hodierna, a formação dos casais têm acontecido cada vez mais tarde. E sabemos — todos nós temos vísceras, ou não? — que o impulso sexual vem cedo. Como lidar com isso sem prejudicar a si nem aos demais?

Um parêntese: Aviso àqueles hodiernos demais, que pensam que aqui faço um “moralismo puritano” que mudem de idéia, estou tentando achar a receita da felicidade, a ética no sentido clássico (aristotélico), e corroboro com meu amigo Julio Lemos: «Com um pouco de observação, percebemos que nossos deveres vão além do ser inofensivos. Veremos que o melhor é ser melhor: crescer em cada uma das virtudes, até os mínimos detalhes, aprendendo a ter prazer naquilo que é bom, e não naquilo que agrada só aos sentidos.»

Uma pessoa que não faz sexo — um celibatário ou um casto, por exemplo — precisa também canalizar o eros, e não reprimi-lo. Há padres que reprimem o eros e nós sabemos qual é a válvula de escape deles. Na melhor das hipóteses, é o dirty talk. O eros, e aí está uma coisa que a sociedade moderna esqueceu (sim, esqueceu, pois já soube), é um dos elementos constitutivos do amor. Bento XVI deixa isso bem claro na encíclica Deus Caritas Est (vá lá, leia, e veja se não faz sentido, mesmo que você não seja católico). E é possível (ora, o que não é possível é que façamos sexo com todas as pessoas que amamos) “amar sem trepar”. Só que a energia do eros é muito forte, a mais forte que recebemos. Portanto não pode ser uma mera “filia”, um amor de amigo. Deve ser um amor plenamente comprometido, por uma vasta gama de pessoas. Pode ser também a santificação do trabalho: despejar o amor erótico no trabalho, por que não? Isso é difícil de aprender; para o católico, o caminho é mais fácil: vida de adoração a Deus, comunhão diária, tudo isso “canaliza” o eros. Quem nos ensina isso muito é Santa Teresa D’Ávila, que sofreu com tentações de luxúria a vida inteira (segundo o exame grafológico presente no livro “I Santi dalla loro scrittura”, de Girolamo Moretti, ela tinha a personalidade de uma ninfomaníaca): foi quiçá a maior mística da história (volte ao prólogo agora, se desejar).

O eros dedicado a Deus é nos ensinado desde sempre: basta ver quão sedutora é a passagem bíblica da pecadora que lava os pés de Jesus e os enxuga com os cabelos (há nos sinópticos, mas eu prefiro a versão de João, capítulo 12). Ora, quem dirá que não havia eros nos atos daquela mulher? E que foi-lhe respondido? Que ela muito amou, e por isso muito tinha lhe sido perdoado.