Feeds:
Posts
Comentários

Archive for janeiro \08\UTC 2004

Je suis… (07/01/2004)

Sherlock Holmes tinha um raciocínio invejável e insuperável. Mas este raciocínio era dentro dos limites humanos. Sir Arthur Conan Doyle o explicava de forma genial e até científica.

Quando perguntado sobre sua capacidade, Sherlock dizia que podia fazer deduções com tal velocidade e precisão porque não ocupava seu cérebro com memórias inúteis. Sherlock nem sabia a ordem dos planetas, talvez nem soubesse o nome do rio Tâmisa. E dizia que, por não ocupar seu cérebro com tais inutilidades, podia fazer melhor uso dele para o raciocínio.

A literatura de Sir Arthur Conan Doyle é agradabilíssima, e muito lógica. Recomendo a qualquer um lê-lo. Mas quero chegar a uma conclusão. Se Sherlock tem tal raciocínio por não ocupar seu cérebro com memórias, o que dizer de uma pessoa que ocupa sua mente lembrando de detalhes, cenas inúteis, picuinhas?

Eu diria que tem o raciocínio de um elefante. Tão irracional quanto. Talvez, até pior. Pois se essa pessoa tiver uma cultura pré-histórica, poderíamos dizer que ela tem o raciocínio de um mamute.

É… isso me dá pena mas faz que eu não me irrite um pouco sequer. Obrigado por gastar seu tempo! Não lembre disso! Até mais!

Read Full Post »

Lingua(gem)

Língua e linguagem… Você que está lendo isso, dê uma ajuda. Pense no caminho que você faz de sua casa até seu trabalho ou instituição de ensino. E/Ou então pense no que você fez ontem antes de dormir.

… … …

Pensou? Como você pensou? Você usou de palavras, ou foram símbolos, signos próprios e só de seu entendimento? Fazendo uma extrapolação, de mim para a humanidade, acredito que você tenha utilizado palavras. Você pensou: “virei na Conselheiro, passei três semáforos…” ou “tomei um copo de leite morno, troquei minha roupa pelo meu pijama…”. Você utilizou palavras, e palavras de sua língua mátria.

Agora, um bebê, que não aprendeu a ler, nem a falar, nem a entender o que lhe é falado, ele pode pensar? Ou então, um “homem-lobo”, foi abandonado com os lobos quando recém-nascido. Tem vinte anos. Ele pensa?

Vou tentar uma abordagem gradual. Sempre nos deparamos com coisas das quais não sabemos o nome, não sabemos nomear. Mas dispomos, além da imagem, artifícios como “bagulho”, “coisa”, ou até sua descrição física, feita com outras palavras, das quais pré-dispomos. Esse é um dos métodos de aquisição de “nomes”. Pois, descrevendo, inventamos um nome, ou perguntamos, através da descrição, para outra pessoa qual é o nome daquela coisa. Mas, qual é a nossa estaca inicial? É “mamãe”? Conseguimos descrever algo só com “mamãe?”. Acho que esse ponto inicial para uma tentativa indutiva não deu certo. Tentemos outro ponto inicial para outro caminho.

Surdos-mudos se comunicam através de gestos, mas como eles pensam? Como é a “voz interior deles”? Se tornou-se surdo mudo com o tempo, talvez tenha aprendido as palavras, saiba sua sonoridade, e fale consigo (pense) através delas. Mas se nasceu surdo? Por mais que aprenda a ler e escrever ele não sabe a sonoridade das palavras. Como se dá seu pensamento? Cria sons internos para as palavras que escreve? E se é iletrado, não pensa?

Bom, acho que esse caminho é mais frutífero, mas antes que você se pergunte, não tenho (ainda) a resposta? Nem sei que ciência se preocuparia com isso: se a antropologia, a psicologia ou a lingüística. Quem trata das diferenças entre língua e linguagem (entre outras coisas) é a lingüística. Do pensamento, (pelo menos deveria ser) a psicologia. Dos surdos-mudos e homens-lobos (e dos seringueiros, velhos, índios [brincadeirinha!]) a antropologia.

Não me lembro da minha primeira infância, de resto posso afirmar que quando não pensei em português o fiz em inglês (na época em que estava mais afinado com ele). Mentira. Já pensei com sons, mas para produção de sons. Penso em músicas para lembrá-las ou criá-las. Talvez seja essa a resposta simples: pensamos de acordo com o que queremos produzir: se queremos produzir linguagem, pensamos na nossa língua, se queremos produzir música pensamos em sons, se queremos produzir imagens, pensamos em figuras. E as idéias, reflexões próprias? Idéias que não precisamos extravasar? Ou não extravasaremos da forma que são feitas? O caminho que fazemos não extravasamos com palavras, mas com passos; porém não pensamos com passos, mas com imagens e palavras, talvez até sensações.

Agora percebo que minha reflexão inicial estava equivocada. Você pode pensar nas suas atitudes, nas imagens e sensações delas (além das palavras), para as lembranças (como você fez antes de dormir, ou indo para o trabalho/escola). Agora se peço que pense em “o que é ciência” ou “qual o sentido da vida”? Você estruturará seu pensamento com palavras certamente. Qual o porquê disso? Pode um homem-lobo pensar “qual o sentido da vida”? Não pode apenas por que não tem linguagem feita de palavras? Toda reflexão daqueles que possuem linguagem é feita com palavras, estruturadas através de sua língua mais fluente em sua mente, com uma “voz interna”, o diálogo interior. Essa reflexão que transcrevo se faz com palavras.

Pois bem, faltam-me elementos. Se soubesse que um homem-lobo não pensa, estaria pronto: toda reflexão se faz através de palavras. Não, não estaria pronto. Pois aposto que surdos-mudos pensam, mas não sei se é com palavras ou com gestinhos manuais. Digamos que homens-lobos não reflitam e que surdos-mudos reflitam com gestinhos. Agora acho que sai o postulado: “todos que refletem, o fazem na sua linguagem de comunicação”. É, mas são chutes demais, e que não são o que eu acho (eu acho que homens-lobos refletem (ou tem a capacidade de) e que surdos-mudos não refletem com sua linguagem manual.

Mas, em um momento de iluminação, aqui sai a minha grande aposta: todos os seres humanos tem a capacidade de refletir. Se não lhe é ensinada uma linguagem de signos (os quais chamamos palavras) durante a infância, ele cria sua linguagem, feita de signos próprios, a língua de sua “voz interna”, que, na falta de uma já estipulada, é criada para o fim da reflexão. Um surdo-mudo que saiba comunicar-se por gestos manuais, transfere as idéias de sua língua própria para os símbolos manuais (assim como nós que não somos surdos-mudos fazemos para nos comunicar com eles). Um homem lobo cria signos estranhos, talvez com a sonoridade da natureza, talvez com semelhança aos que ele consegue emitir através de suas cordas vocais para sua reflexão, ou signos talvez semelhantes aos de nossos sonhos.

Uma última ressalva, não traduzimos quando falamos uma língua estrangeira com fluência, pensamos usando seus signos, que também são palavras. Para uma linguagem manual, temos que traduzir de nossa linguagem do pensamento para ela, que tem signos diferentes. Pois esse é o meu palpite. Mas ainda acho muito fraco. Ainda resta a dúvida.

Segmentation Fault

Muito obrigado pela leitura! Vemo-no-lemo-nos novamente!

Read Full Post »