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Archive for fevereiro \23\UTC 2009

Uma vida bem vivida é mais ou menos como um banho frio. Há um certo incômodo, mas também há um certo deleite. E o frescor ao sair mais que compensa o gelo ao entrar.

Em diversos momentos devemos fazer coisas que a princípio são incômodas. Por exemplo, preciso lavar minhas meias e arrumar meus papéis. É claro que isso é chato e vai me incomodar bastante, mas eu consigo gostar da atividade um pouco (me sinto bem lavando roupa, sério!), mas a chatice de lavar roupas não é nada comparado com poder calçar meias limpas. O incômodo de arrumar meus papéis não é nada comparado com poder encontrar aquilo que quero facilmente.

É claro que, como falei no último post, vai sempre haver a luta do desejo contra a vontade, a vontade de ter meias limpas no armário, contra o desejo de ficar vagabundeando na internet. A vontade de ter um corpo saudável contra o desejo de comer todas as iguarias que comprei no último fim-de-semana. A vontade de arrumar os meus papéis contra o desejo de jogar World of Goo (dica pro seu carnaval, Leo!) e Frets on Fire.

Mas, retomando o Aristóteles, a felicidade é viver segundo a reta razão. E a razão (diria mais, diria que é a Sabedoria) é a regente da nossa vontade. Sou mais feliz lavando meias que quebrando meu recorde de Play With Me, por mais que isso pareça contra-intuitivo. Mas a intuição nem sempre está certa, como prova o problema da Porta dos Desesperados.

Quão agradável é, como o frescor de um banho frio, olhar pra trás e falar: cumpri o que minha razão me ordenou! Ou ainda, cumpri meu dever outrora, agora posso fazer outras coisas.

Agora vem a má notícia. Esse tipo de luta nunca cessará. Nunca viveremos “pacificamente”. No último True Outspeak, o Olavo de Carvalho faz uma explanação excelente sobre isso. “Não vim trazer a paz, mas a espada”, aquela coisa toda. E, por isso, devemos renovar todo dia nosso espírito, para que enfrente mais um dia de batalha. É difícil.

Se fosse fácil, eu não perderia tempo escrevendo! Escrevo mais para me convencer do que para convencer outras pessoas!

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Eu sou fã do Latino. Não, eu não gosto de nenhuma música dele, mas sou fã do que ele representa. Ele tem uma formação musical aceitável, e pensa até acima da média do que já vi de declarações. Mas faz músicas idiotas, idiotíssimas! E ele mesmo sabe disso, faz por opção, e faz um baita sucesso! Acho que isso só prova a decadência cultural do Brasil. Se é isso que o Latino queria ou não, eu não sei.

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Continuando o debate sobre concorrência nos transportes, recomendo um post excelente do meu amigo T, no blogue “Dizem que eu viajo“.

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Ontem fui para Ribeirão Pires, a convite de meu amigo Allan. Em breve, postarei as fotos no flickr.

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Confesso: estou postando só para manter o propósito que fiz, de postar toda segunda (vejam meus dois leitores que o post sai quase no fim do dia). Mas, até que ponto vale a pena manter um propósito simplesmente por mantê-lo?

Um dos argumentos é a educação da disciplina pessoal. Ao nos obrigarmos a cumprir certas imposições, vamos educando nosso espírito (e muitas vezes nosso corpo também) à obediência. O espírito precisa obedecer a verdade, e o cumprimento dos propósitos é uma boa forma de conseguir isso.

Tenho noções vagas, o que li foi pouquíssimo, tenho retalhos mentais de algumas aulas mas, ao que parece, Aristóteles (Totó para os íntimos), em sua(s) Ética(s) (o que, no sentido clássico, significa ciência da felicidade, ou seja, “como ser feliz”), define o seguinte: o homem tem dois caracteres em si: o desejo e a vontade. Não caiamos num maniqueísmo moralista nem para defendê-lo nem para atacá-lo. Não é uma briga entre «corpo» e «alma». Ademais, nem sempre o desejo está no caminho errado.

O desejo nos mantém alimentados. É por desejo que comemos e bebemos, e não por vontade. A vontade pode nos impor mais copos de água, ou uma comida mais nutritiva, mas o essencial na alimentação é o desejo. E também no sexo, necessário à existência humana. Nem o Flanders pensa em “fazer neném” para motivá-lo à cópula. É o desejo que o move. O desejo é, a princípio, bom.

A vontade que nos faz estudar, ou agüentar acordados para o bem de outra pessoa. Ninguém, exceto a traça, sente desejo por livros. O problema ocorre quando desejo e vontade se chocam; quando o desejo pede algo, e a vontade pede algo oposto. O desejo pede que eu durma, a vontade pede que eu escreva o post que me comprometi a escrever às segundas. Nessas horas, segundo o grande Totó, é a vontade que tem que prevalecer.

Nem sempre isso acontece, e qualquer cristão, mormente católico, sabe muito bem. Às vezes a vontade sucumbe ao desejo. Embora isso seja ruim, não é dramático. Como diz certo bordão, “faz parrrte, né?” O problema é que quando o desejo sempre vence, ele deforma a vontade, e ela se torna uma escrava do desejo. Nosso intelecto nos impele a fazer coisas que outrora não impeliria. O desejo nem aparece em certas ocasiões, porque ele não precisa brigar com a vontade, ela já fará o que ele quer (pelamordedeus, não levem essas antropomorfizações muito a sério!). Portanto, não podemos deixar o desejo conquistar uma hegemonia. Do contrário, submeteremos o restante da nossa alma a ele. Seremos escravos de um pequeno pedaço de nós mesmos, em vez de sermos integrais (nem o pão para emagrecer nem o leite para engordar), termos todos os aspectos de nossa alma conhecidos, e deixar superar, em cada caso, aquele que estiver de acordo com a verdade.

Pra isso, precisa treino. Treino é (quase) sempre artificial, quase sempre uma imposição. Pode-se tirar proveito durante, mas a princípio é sempre algo imposto. O cumprimento de propósitos sérios não é treino, é agir com responsabilidade. Mas propósitos quase jocosos, como este que vos confidenciei, são, e são úteis. E agora encerro, para cumprir algumas das outras obrigações que me impus para hoje, as pouquíssimas que ainda não naufragaram.

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Eluana Englaro brutalmente assassinada…

Sem defesa alguma, essa mulher italiana de 38 anos foi assassinada por uma clínica, que deveria ser paga para salvá-la, não para matá-la. http://www.estadao.com.br/vidae/not_vid320912,0.htm

Se tiver um tempinho, reze por ela. E por justiça.

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Uma das coisas que mais me irrita é o patronímico “estadunidense”. Por que não americano? Eu respondo: por recalque. O nome daquele país é América. Estados Unidos é a organização de lá, assim como o Brasil já se chamou Estados Unidos do Brazil, e hoje se chama República Federativa do Brasil, serei eu um “republicofederativense”?

Ah! Mas confunde com o continente. E os torcedores do América, por acaso são “footballclubenses”? Não! São chamados, igualmente, de americanos.

“Porque a torcida americana é toda assim, a começar por mim, a cor do pavilhão é a cor do nosso coração!”.

Ora, se um time de segunda divisão (com um passado glorioso) tem seus torcedores chamados de americanos, por que não igualmente um país cujo nome é América?

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Como eu odeio a Expresso Brasileiro, a Rápido Brasil e a Ultra! Essas três empresas formam um cartel na linha São Paulo – Santos/São Vicente. Você não consegue escolher entre elas. É bem diferente, por exemplo, da cooperação Cristália – Cometa na linha São Paulo – Campinas. As passagens, nesse último caso, são vendidas num mesmo guichê, pelo mesmo preço, mas você escolhe se prefere Cristália ou Cometa. Cada uma tem seus horários regulares, suas vantagens e desvantagens. As três empresas que eu odeio revezam quem oferece o serviço, ou seja, nunca há escolha. Para completar a picaretagem, eles atrasam absurdamente o ônibus até que ele lote, pra aumentar os lucros. Dane-se se os passageiros têm horário a cumprir.

Não bastasse isso, quando surgiu uma concorrência verdadeira (a Expresso Luxo, que oferece um serviço pontual e executivo pelo mesmo preço), eles entraram na justiça para cassar a concessão do trecho a ela, tamanho foi o seu medo. Felizmente, a Expresso Luxo ganhou o recurso e voltou a operar, mas com poucos horários. No último domingo, eu, com pressa, peguei o Expresso Brasileiro de 14h59min, porque não podia perder os 10 minutos para pegar o Expresso Luxo de 15h10min. Advinhem que hora o Expresso Brasileiro saiu? 15h10min. Que raiva! Bando de picaretas.

Mas reparem uma coisa: o medo que esse cartel tem da concorrente pequena. Monopólio é uma coisa cruel. Uma empresa detém o monopólio das linhas do aeroporto de Guarulhos para São Paulo. O preço que ela cobra é praticamente o mesmo que o cobrado pelas empresas que levam a Santos e a Campinas. Por quê? Porque tem um monopólio. Dada a tradição estatal do Brasil, nós sempre fomos acostumados com monopólio, e queremos “reclamar pro governo” (como acontecia na Alemanha Oriental, se alguma coisa fosse ruim, você escrevia uma cartinha pro governo, e torcia pra alguém ler). Mas, graças a Deus, um setor tem transformado isso, e mudado a mentalidade do brasileiro: a telefonia.

Cada vez mais o brasileiro se acostuma com uma coisa chamada “concorrência”, fundamental para o capitalismo, graças às empresas de telefonia, mormente telefonia móvel. No mesmo ônibus em que passei raiva, vi um homem ligando para a Claro para reclamar que não pagava mais apenas 6 centavos pela ligação, seus créditos tinham se esvaído, e deixou claro: “Na Vivo eles me dão bônus de 10x o valor da recarga”. Isso é um progresso enorme no Brasil, a noção da concorrência trabalhando a seu favor! A concorrência acirradíssima entre as empresas de telefonia móvel é um exemplo para a nação. Todo mundo tem celular hoje no Brasil, tido na época de monopólio estatal como “coisa de milionário”, e o número de celulares sobrepujou o de telefones fixos. E há idiotas que criticam a privatização… É claro que a primeira empresa a entrar vai combater, com todas as forças, a existência das chamadas “banda B” e “banda C”. Mas o mercado tem que ser o mais amplo possível!

E volto aos transportes rodoviários. Uma estrada não é algo tão crítico como o espaço aéreo. Por que não deixar quem quiser operar um trajeto? Só pode haver ganhos advindos disso. Tenho certeza que pelo menos umas 5 empresas ofereceriam São Paulo – Campinas. Umas duas a mais entrariam no trecho São Paulo – Santos, os que mais uso. Os preços cairiam, a qualidade melhoraria, cada empresa ofereceria um diferencial. Antes de ser comprada pela 1001, a Viação Cometa garantia a pontualidade e a agilidade, por benevolência apenas. Depois da aquisição, a Cometa foi do vinho pro fel. Os ônibus não têm a agilidade de outrora (dos 2h10min que levava em 2002, a viagem Santos – Campinas hoje demora 3h30min), apesar de serem “novos”, e a pontualidade caiu bastante. Na maioria de suas linhas, eles são monopolistas e/ou têm um número de horários muito superior aos concorrentes.

E por que pedágio é tão caro? Simples, porque estradas que vão para “quase” o mesmo lugar são administradas pela mesma concessionária. Anhangüera e Bandeirantes deveriam ser concessionadas para empresas diferentes, o mesmo vale para Dutra e Trabalhadores, Anchieta e Imigrantes, etc. Só que em todos os casos, é a mesma concessionária, os mesmos valores de pedágio, a qualidade da administração privada, mas com o preço do monopólio.

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Mais um comentário capitalista, mas aeroviário: a entrada da Azul no mercado foi uma coisa fantástica. Os preços dos voos em Campinas para os destinos para que ela opera caíram bastante. Mas outros voos também, já que o aeroporto de Viracopos começou a ficar mais movimentado, e a empresa aérea deve operar em breve para mais e mais destinos (como Rio e Floripa). A Azul atacou em rotas inexistentes (como voos diretos para Vitória e Florianópolis partindo de Campinas), rotas existentes, mas overpriced pelas outras companhias, de forma a competir não apenas com o mercado de Campinas (pequeno), como com o de São Paulo (gigante). Dependendo de onde você está em São Paulo, você chega em Viracopos antes de Guarulhos. Se a Azul crescer, e novas empresas a seguirem, todos ganham. Ainda vou falar mais disso.

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Mudei de assunto em relação aos últimos posts, não? Só quis dar uma descansada dos assuntos de moral e virtudes. Semana que vem, quem sabe volto à carga, menos irritado com as empresas detentoras de monopólio e exploradoras, não do negócio, mas do cliente. Mas quero falar mais sobre a educação da vontade e já estou com um artigo engatilhado sobre crendices, ceticismo cego, e um áureo equilíbrio, quem sabe sai segunda que vem. (E veja, quarta segunda-feira seguida com artigo, espero manter o ritmo!)

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Querer è poder

Diz-se por aí, com o maior otimismo, que “querer é poder”. Ora, que pensamento mais idiota. Isso é besteira de “O Segredo”, não uma realidade. Digamos que eu queira ter a forma física do Schwarzzenegger (tenho certeza que errei a grafia do nome do governator), eu posso?

Alguns dirão que eu posso, que basta fazer exercícios de musculação de hipertrofia com afinco, tomar alguns anabolizantes e voilà. Em alguns anos, estarei como o governator em seus tempos áureos. E minha estrutura óssea mirrada? E o meu metabolismo? A minha altura? Algumas coisas que eu *não posso* mudar, mesmo que eu queira?

Querer não é poder, como fica claro. Mas é um importante passo. Se não há demais impeditivos, querer, de verdade, é grande parte do poder. Se eu quero, não ser como o governator, mas simplesmente ter metade da força de um estivador, eu posso. Se eu quiser aprender alemão, eu posso. Mas não em 15 minutos.

Olha o tempo aparecendo de novo. Tio Cronos anda passeando aqui pelo blogue, e volta e meia vira assunto de novo. Não podemos estalar os dedos e ver os nossos empenhos realizados. Nem vê-los realizados no começo da caminhada. É preciso usar o tempo, com paciência e perseverança, para conquistar o que anseamos.

Encarado o tempo, vencidos todos os desafios e tentações que ele nos impõe: a desistência, o relaxamento, a impermanência, os momentos e períodos sem resultados visíveis, movidos pela vontade, alcançamos os nossos objetivos. Só nesse exclusivo aspecto, e guardadas todas as restrições, é que querer é poder, e mesmo assim, com um pé atrás.

Se não há impeditivos, repito, querer é grande parte do poder. Se isso acontece, só depende de cada um, e de mais ninguém, alcançar o que queremos. É claro que podemos receber ajuda (e pouco me importa se ajuda transcendente ou imanente), podemos pedi-la e procurá-la mas, em última instância, depende apenas do empenho próprio conseguir as coisas.

Enfim, apesar de querer não ser poder, como querem os sonhadores e novaerísticos (e algo que acaba sabotando-os, já que não enfrentar a realidade impede a realização de qualquer plano), devemos educar a vontade para que, mesmo sujeita às intempéries, possa servir a seu propósito, qual seja, conduzir nossas almas para a direção de nossos anseios.

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