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Archive for the ‘Brasil’ Category

Uma vida bem vivida é mais ou menos como um banho frio. Há um certo incômodo, mas também há um certo deleite. E o frescor ao sair mais que compensa o gelo ao entrar.

Em diversos momentos devemos fazer coisas que a princípio são incômodas. Por exemplo, preciso lavar minhas meias e arrumar meus papéis. É claro que isso é chato e vai me incomodar bastante, mas eu consigo gostar da atividade um pouco (me sinto bem lavando roupa, sério!), mas a chatice de lavar roupas não é nada comparado com poder calçar meias limpas. O incômodo de arrumar meus papéis não é nada comparado com poder encontrar aquilo que quero facilmente.

É claro que, como falei no último post, vai sempre haver a luta do desejo contra a vontade, a vontade de ter meias limpas no armário, contra o desejo de ficar vagabundeando na internet. A vontade de ter um corpo saudável contra o desejo de comer todas as iguarias que comprei no último fim-de-semana. A vontade de arrumar os meus papéis contra o desejo de jogar World of Goo (dica pro seu carnaval, Leo!) e Frets on Fire.

Mas, retomando o Aristóteles, a felicidade é viver segundo a reta razão. E a razão (diria mais, diria que é a Sabedoria) é a regente da nossa vontade. Sou mais feliz lavando meias que quebrando meu recorde de Play With Me, por mais que isso pareça contra-intuitivo. Mas a intuição nem sempre está certa, como prova o problema da Porta dos Desesperados.

Quão agradável é, como o frescor de um banho frio, olhar pra trás e falar: cumpri o que minha razão me ordenou! Ou ainda, cumpri meu dever outrora, agora posso fazer outras coisas.

Agora vem a má notícia. Esse tipo de luta nunca cessará. Nunca viveremos “pacificamente”. No último True Outspeak, o Olavo de Carvalho faz uma explanação excelente sobre isso. “Não vim trazer a paz, mas a espada”, aquela coisa toda. E, por isso, devemos renovar todo dia nosso espírito, para que enfrente mais um dia de batalha. É difícil.

Se fosse fácil, eu não perderia tempo escrevendo! Escrevo mais para me convencer do que para convencer outras pessoas!

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Eu sou fã do Latino. Não, eu não gosto de nenhuma música dele, mas sou fã do que ele representa. Ele tem uma formação musical aceitável, e pensa até acima da média do que já vi de declarações. Mas faz músicas idiotas, idiotíssimas! E ele mesmo sabe disso, faz por opção, e faz um baita sucesso! Acho que isso só prova a decadência cultural do Brasil. Se é isso que o Latino queria ou não, eu não sei.

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Continuando o debate sobre concorrência nos transportes, recomendo um post excelente do meu amigo T, no blogue “Dizem que eu viajo“.

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Ontem fui para Ribeirão Pires, a convite de meu amigo Allan. Em breve, postarei as fotos no flickr.

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Preto no branco

Saindo da missa, passo na banca de jornal para ver as notícias de domingo e sou presenteado com uma matéria esquizofrênica da Folha que diz que o preconceito racial no Brasil caiu porque mais pessoas se declaram pretas e pardas. Não apenas isso, a matéria comemora dois resultados: subiu de 88% para 91% o número de pessoas que consideram que os negros sofrem preconceito no Brasil. Ao mesmo tempo, caiu de 11% para 3% o número das pessoas que se declaram racistas.

A não ser que esses 3% sejam os autores de novelas da Globo e os jornalistas dos veículos de mídia principais, é impossível que eles tornem, por si, um país racista. Não tem como. Ou seja, não há coerência alguma nesses dados. Um ou ambos são furados. Ou as pessoas não se declaram racistas por medo, sei lá, ou há uma percepção maior (e vendida pela mídia) de que o Brasil é racista, mesmo sem sê-lo. Ou ambos: muito mais pessoas são racistas e isso não torna o país racista.

Em segundo lugar, não há nada para comemorar nisso. Haveria de se comemorar se menos gente considerasse o Brasil racista e mais gente se considerasse racista. Isso é óbvio. Não entendeu? Vou dar um exemplo: “Ah, como tem burro no Brasil, mas eu sou inteligente!”.  Sacou agora? Quer que desenhe? Vamos chegar bem perto disso: “Ah, como tem racista no Brasil, mas eu não sou”. É isso que viramos: um país de hipócritas.

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Eu tenho um grande sonho patriótico. Eu quero, um dia, entrar em uma locadora e não ver a seção “cinema nacional”.

Uma vez uma pessoa, ao me ouvir dizer isso, olhou pra mim com aquela cara de “seu estrangeirista vendido”. A verdade é o contrário. Quando eu vejo um filme, brasileiro, americano, alemão ou iraniano, é pelo que ele pode me dar. Diversão, temas pra refletir, emoção, ou apenas minutos de distração. O fato dele ser brasileiro não me dará isso mais ou menos.

Tropa de Elite é um filme policial, Meu Nome não é Johnny uma comédia, o Homem que Desafiou o Diabo uma pornochanchada, Cidade de Deus é um drama de ação, Central do Brasil um drama sem ação e o Quatrilho pertence ao gênero “chatice insuportável”. Já a Dona da História é uma legítima comédia romântica e merece um destaque. Embora bobinho, é uma comédia romântica no molde das inglesas, e melhor que muitas delas. Consegue ser legitimamente brasileiro sem “forçar a barra”, sem ter que afirmar sua “brasilidade” a cada instante. É bom, não por ser brasileiro, mas apesar de ser brasileiro.

Outra coisa insuportável: todo filme europeu cai na sessão “Cult” ou “Interesse Especial”. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain não é cult, é uma comédia romântica também, só diferentezinha. Corra Lola Corra é um videoclipe, um filme de ação. Não é mais cult que Matrix ou Clube da Luta. Já “O Cheiro do Ralo” é um filme cult, mas mais precisamente um filme nonsense, mas colocá-lo-ia na seção de comédia sem dor na consciência. Está na de cinema nacional. Ora, alguém que goste do Cheiro do Ralo, não necessariamente gostará de Dias de Nietzsche em Turim ou de Meu Tio Matou um Cara. Não são do mesmo gênero, definitivamente.

Ao colocarmos todos os filmes europeus na categoria de “filmes intelectuais” e todos os filmes brasileiros na categoria “vai lá, assiste, dá um valor pro seu país”, subestimamos estes e superestimamos aqueles. É um desrespeito com a boa produção nacional. Há filmes brasileiros bons e ruins. Olga é Péssimo, Tolerância também, e o Homem que Copiava, apesar de meu asco moral por sua tese, é um filme bom, comparável à produção estrangeira que nos chega. Estamira me deu vontade de vomitar (pode ser porque eu o assisti no cinema mais fedido da face da terra, o Cine Arte Posto 4 em Santos) e Ilha das Flores seria mentiroso e auto-contraditório filmado no país que fosse.

O cinema brasileiro será muito melhor no dia em que não precisar ser brasileiro, em que for “cinema ponto”.

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É impossível, na América (provocação a meu amigo Tomás) passar um 4 de julho sem ouvir milhares de fogos de artifício, por mais que você esteja no sudoeste de Montana. No 7 de setembro deste ano, em Santos (cidade mãe da independência), não ouvi nenhum.

Não interessa que D. Pedro não fosse dado aos estudos, e que fosse português, herdeiro, marionete do José Bonifácio. Ele proclamou a nossa independência de Portugal, e foi uma independência verdadeira, apesar de tudo. Nenhuma história de nenhum país é linda e maravilhosa, feita com heróis saídos da tradição homérica, e feitos de bravura incontáveis. Todos os homens têm defeitos morais, inclusive os heróis, e descartar seu heroísmo por causa disso é jogar fora uma razão, é jogar fora o valor dado à pátria.

D. Pedro, ao voltar a Portugal, tornou-se Pedro IV. É conhecido por lá como “O Libertador”, pois libertou Brasil de Portugal e, depois, Portugal do absolutismo. Também é conhecido como “Rei Soldado”, por pelejar na guerra civil portuguesa de 1832. Era definitivamente um homem de uma coragem rara, principalmente se comparada à baitolagem dos moleques de hoje em dia. Soube se cercar das pessoas certas, e tomar as atitudes necessárias para que o Brasil fosse um país independente. O problema é que, com nossa história, fazemos o mesmo que com nosso cinema: colocamos numa prateleira separada.

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Should I have hissed her?

Exemplo idiota

Há algumas “dores e delícias” (pra começar citando “Caetano”) em ser audaz. Mas antes de continuar a ler, pare e leia isto aqui: http://julio-lemos.blogspot.com/2008/07/how-to-convince-groucho-marx-joining-my.html

Podemos tentar definir audácia de várias formas, a minha preferida, por ser abrangente o suficiente, é: “sair da zona de conforto por um objetivo”. Como disse o Christian num comentário no meu recente artigo B&C,”aos bons falta o ímpeto dos maus”. Discordo, e para cutucar o Leo de novo, eu corrigiria a frase para: “aos bonzinhos falta o ímpeto dos maus, que também é dos bons”. Como disse no mesmo artigo, o bonzinho não assalta um banco porque tem medo, o  bom porque não deve.

Farei aqui uma confissão pública: diversas atitudes torpes não foram tomadas de minha parte, não por senso do dever, responsabilidade, consciência do que é correto, mas por simples medo das conseqüências. Mas aqui não é confessionário, e nenhum padre me lê pra me dar o perdão sacramental. Vamos falar de atitudes moralmente neutras.

Demorei mais de 24 anos para aprender a andar de bicicleta. Aprendi há um mês, mais ou menos. Aprendi naquelas… Hoje, saindo de casa para fazer a barba e dar feliz aniversário pessoalmente à Izabel, antes de viajar para Porto Alegre (viagem que seria posteriormente cancelada), lembrei que havia aprendido a andar de bicicleta. Só havia feito trechos curtíssimos, e muito dentro da zona de conforto, tirando as duas primeiras vezes que tentei. Hoje, estava com um pouco de pressa, tinha pouco tempo, e resolvi pegar a bicicleta (na pior das hipóteses, eu vou carregá-la na mesma velocidade em que ando). Corri alguns riscos, a bicicleta tombou algumas vezes, uma boa parte do percurso eu nem tentei fazer (subidas muito íngremes, ruas movimentadas), mas a tímida audácia valeu a pena. Ganhei um tempo preciosíssmo que me faria falta.

Mas digo, não aprendi a andar de bicicleta todo esse tempo por dois medos: dos tombos e da vergonha. Passei um pouco de vergonha, me ralei um pouco (e foi bem pouco) no começo, mas o saldo é positivo.

A audácia é necessária. Num artigo recente sobre liderança do “The Art of Manliness” (a arte da macheza) — blogue excelente recomendado-me pelo Zé –, é dito com todas as letras: não é um líder quem não arrisca. Ou, em bom português, “quem não arrisca não petisca” (em bom inglês: nothing ventured, nothing gained).

Duas coisas são importantes no caminho da audácia: o sucesso e o fracasso. Parece óbvio, mas cada um é importante em um aspecto. O sucesso para manter a motivação, se somos audazes e fracassamos sempre, voltaremos à nossa medíocre zona de conforto. O fracasso para não nos assoberbarmos nem nos acharmos super-homens. Na medida em que somos audazes e conseguimos cumprir nossos propósitos sempre, podemos desenvolver um comportamento temerário.

É importante tomar um não no pedido de emprego, tomar um tombo de bicicleta, ver algo que tinha tudo pra dar certo dar errado, porque mantém nossos pés no chão. Mas tentando ter uma audácia mais firme e virtuosa a cada dia, eu vejo que vale a pena. A raiva, a dor, a sensação de impotência, isso é passageiro. Os ganhos para a alma são eviternos. A cojer las cuerdas y picos, aquela coisa toda…

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Meus artigos, por uma coincidência — ou, pelo menos, de forma não planejada — vêm num crescendo nesse tema. Primeiro sobre a coragem, depois sobre a ousadia e o ímpeto e, agora, sobre a audácia. Ainda mais depois de ler o artigo do Julio, com a “jaculatória” de Hernan Cortez no fim. Esse é um tema muito importante para qualquer um que queira ser mais que morno, mais que bonzinho, mais que cumpridor das regras. A audácia é algo que nos torna (os homens) verdadeiramente viris e, no âmbito antrópico, plenamente humanos

Aproveito para um comentário marginal. Em uma campanha política, é preciso audácia também, e o César, candidato a vereador (e amigo meu) está cumprindo com isso. É preciso coragem para enfrentar as adversidades e ousadia para encarar situações novas, ainda mais apenas com o dinheiro de doações de amigos e obedecendo à lei eleitoral (não obedecê-la ajuda muito). Sim, eu forcei a barra só para recomendá-lo como candidato a vereador em Campinas, mas não é só isso, é claro. Audácia tem, e muito, a ver com a sua campanha.

Por fim, voltando, um outro escrito meu que talvez valha a pena a releitura, com a nova visão sobre coragem, ousadia e audácia, ainda mais em tempo de olimpíadas e eleições, é o “Vencer e Perder“. Se tiver um tempinho, dê uma conferida. Obrigado por me ler e até mais!

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Acho um absurdo a Igreja se meter assim nas questões de Estado! Ainda bem que a ciência prevaleceu sobre o obscurantismo, na questão das células-tronco embrionárias, ao contrário do que vimos em muitas ocasiões na história. Não podemos deixar a religião interferir na vida pública!

A oposição à escravidão, verificada no início do primeiro milênio, foi contra a base da economia romana, e contra o progresso material! Quando as luzes vieram, no renascimento, retomamos a escravidão, que nunca devia ter sido encerrada. E pra você ver como os católicos querem se meter na vida de todos, quando os bandeirantes quiseram botar os vagabundos dos índios pra trabalhar de escravos, os jesuítas não deixaram! Já na Idade Média, a regulamentação da tortura, obra de carolas, impediu que se torturasse alguém mais do que uma vez na vida e que se derramasse o seu sangue no processo, impedindo muitas investigações e tirando um poder lícito dos reis. Depois, a catequização dos índios e o combate ao infanticídio e às guerras fratricidas entre eles dizimou valores culturais antiqüíssimos, mostrando quão opressora é essa instituição.

Depois, na sociedade moderna, vemos que a Igreja impôs muitos de seus mandamentos na lei. Por exemplo, a proibição do assassinato acabou com o justo direito dos Estados sobre os seus cidadãos. E quer lei mais opressora que o atentado ao pudor? Por que não pode bacanais em público, como faziam os romanos? E o estupro, mero seguimento da natureza? Só são proibidos por causa da Igreja!

Não é só isso, em muitas outras coisas a Igreja e seus carolas interferiram nas leis até hoje, cometendo diversos impropérios e entraves à civilização! Por que não posso matar meus filhos se nascerem com deficiência? Por causa da Igreja! Pois onde ela não atuou, pode. Por que não posso bater na minha mulher caso ela me desobedeça? Por causa da Igreja! Onde esses reacionários católicos não têm vez, essa ação naturalíssima pode ser feita! Aliás, eu deveria ter o direito de matá-la a pedradas caso me traísse, mas os cristãos acabaram com esse direito!

E a pedofilia? Os gregos eram muito felizes com seus rapazotes, mas depois a Igreja, com seu moralismo, proibiu esse prazer! E os doentes? Que morram! Por que essa instituição tinha que se meter na vida dos saudáveis e inventar os hospitais? E ainda dar aos doentes direito de ser tratados gratuitamente, como pode? E essa história de educação gratuita e universidades? Invenção da Igreja Católica, o Estado não pode fazer isso! Por causa da Igreja, eu não posso arrancar a mão dos ladrões, matar o filho daquele que mata meu filho, eles impuseram uma série de coisas contrárias a tudo isso, que sempre foi feito na humanidade até a Igreja Católica se meter com seus tentáculos opressivos.

Está na hora de darmos um basta a esses que querem colocar seus valores religiosos nas leis. A luta continua!

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Sábado passado foi dia de Santo Expedito. Um problema que tive durante algum tempo na Igreja foi a devoção dos santos. Explico. Aquela coisa de beatas pegarem um santinho e fazer uma “reza milagrosa” não me cheirava bem. Eu não gostava daquilo, de jeito algum. E era só pedir, e depois ir até Aparecida acender uma vela. Não gostava, repito. E, se quer saber, ainda não gosto.

Uma das coisas emblemáticas disso é o “apelido” dos santos: Santo Expedito é o “santo das causas urgentes”. Então, se a sua filha já está ficando velha e ainda não casou, reza pra Santo Expedito! Se a prova é amanhã e você não estudou, reza pra Santo Expedito. E tem o santo casamenteiro, o santo das causas impossíveis, o santo disso, o santo daquilo, e o daquilo outro também. É estranho.

O Padre Euclides, de quem só não puxei mais o saco aqui no blogue que o Julio Lemos, deu uma revolucionada na minha cabeça soberba e botou a devoção aos santos nos trilhos. Os santos são importantes pelo que fizeram: pela marca, pelo sulco que deixaram no mundo; para o Pe. Euclides são importantes pelos seus defeitos e fraquezas.

Hein???

Ah, meu amigo! Vamos por partes. Todos nós temos fraquezas, tentações, vicissitudes. Os santos também tiveram. E a maioria teve muitas quedas, antes e depois da conversão. Estudando como eles lidaram com isso (e nem precisa ser “católico”, basta admirar as virtudes e querer imitá-las), podemos agir semelhantemente.

Não vou citar santo por santo. Há um livro excelente chamado “The saints according to their handwriting” (se você lê italiano, leia o original: il i santi dalla loro scrittura, ou algo assim), do Padre Girolamo Moretti. Já falei dele aqui, é um livro que faz análise (cega) grafológica de escritos de santos, e mostra suas qualidades, defeitos e tendências. Todos os santos foram humanos como nós. É claro que não temos as chagas de Cristo nem delas sai perfume, como São (Padre) Pio de Pietrelcina, mas nem por isso as tentações não o atacavam.

O caso de Santo Expedito, contudo, merece ser citado. Ele era um cara pagão e devasso, como geralmente são os pagãos. Apresentado ao Cristianismo, sentiu-se chamado à conversão. Ele podia deixar pra amanhã, foi o que um corvo falou pra ele: chegou perto dele e começou: “cras”, “cras”, que em latim (ele era soldado romano, latim era sua língua mãe) quer dizer “amanhã”. Ele olhou pro corvo e berrou: “HODIE” (não preciso traduzir, né?).

Por isso ele é o “santo das causas urgentes”. Não só: por se converter, foi chicoteado até as vísceras e depois decapitado. Isso que é martírio. Eu acho de uma mediocridade sem tamanho chegar pra um cara desse e pedir pra ir bem na prova. Mas acho justo e necessário pedir-lhe, por exemplo, inspiração e intercessão pra não deixar pra amanhã as coisas. Foi isso que ele fez, e é nisso que ele pode me inspirar. Posso recorrer a ele para coisas mais medíocres, como recorro a São Bento quando vou entrar em lugares potencialmente perigosos (beco, caminhos escuros, etc.).

Essas coisas me fizeram recobrar a “devoção aos Santos”, mas de uma maneira que considero mais de acordo com “o que Deus quer de nós”. Assim fui compondo o meu “devocionário”. A São José peço dedicação ao trabalho e atenção; a São Bento, que eu cumpra o “ora et labora”; à Virgem Maria, pureza, humildade, obediência; a Santa Bakhita, que eu aceite os sofrimentos que a vida me impõe, a Santo Expedito, que eu vença as tendências de procrastinação e grite “HODIE”. Isso que eles ensinaram com sua vida, com seus momentos de fraqueza e de fortaleza. E é isso o que eu peço em oração para eles. Já disse, é claro que tenho intenções medíocres muitas vezes, mas isso era pra ser exceção, e não regra.

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Um comentário ortogonal: estou em Brasília, e vim para cá de Congonhas na quarta-feira. Entre outros políticos, viajei com Michel Temer, o único cara no mundo que consegue ser de extremo centro.

Por falar em política e em PMDB, o Kassab conseguiu apoio do Ércia, vocês viram (meu tio o chama assim, porque “o resto do nome ele já perdeu faz tempo”)? O Ércia (ou Quércia, se preferirem) é o cara que manda, hoje, no MR-8, que por sua vez publica o fantástico “Hora do Povo“. O jornal soltou um caderno em homenagem ao Stálin ano passado, e quando começou a guerra do Iraque, soltou a seguinte manchete: “Bush invade Iraque contra governo democrático de Saddam”. Maravilha da humanidade.

Essa aliança me deixou muito feliz porque eu poderei ver o HP (e o MR8 ) falando bem do Kassab e do DEM. Essa eu quero ver mesmo, e vou dar muita risada! Mas ainda não foi dessa vez, eles soltaram uma manchete criticando (MUITO levemente, diga-se de passagem) o apoio ao Kassab, preferindo um apoio ao PT. Mas vejam que pérola de jornalismo encontramos no artigo:

“Quércia sempre foi o líder da resistência peemedebista à submissão aos tucanos. Durante os oito anos do desastroso governo de Fernando Henrique, o ex-governador manteve-se na oposição ao neoliberalismo e ao entreguismo, coerente com sua trajetória de identificação com o povo e com as aspirações pelo desenvolvimento nacional (…) Fernando Henrique e Serra saíram do PMDB para fundar o PSDB acusando Quércia, exatamente em virtude de suas qualidades (…): uma política econômica de acordo com os interesses nacionais, a vontade de ver o Brasil como uma grande nação, a promoção do bem-estar do povo e, não menos importante, a competência administrativa”.

Stupendo!

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No Natal eu vou ver o bom velhinho, e por isso comecei a estudar italiano. Se alguém quiser me dar uma força, bater papo em italiano daqui a um mês mais ou menos, quando vou ter uma base para uma conversa de crianças, ou algo assim, eu agradeço. Estou usando um método autodidata, que apesar do título asqueroso, parece muito bom: “O Novo Italiano Sem Esforço”, da editora Assimil (parece que é publicado no Brasil pela E.P.U.). Há outras línguas, todas “O Novo XYZ Sem Esforço”. Já sei, nas três primeiras lições (que tomam apenas dois períodos de 20 minutos a meia hora cada, uma por dia), conjugar o verbo ser/estar e haver/ter, algumas palavras básicas, os elementos constitutivos da pronúncia e algumas palavrinhas chave. (Ademais, o método é tão politicamente incorreto que na lição dois você já aprende a pedir cigarro, isqueiro e assento de fumantes no trem).

Scusi, lei ha una sigaretta?

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Na quinta-feira fui a São Luis, cujo centro achei semelhante à parte antiga e acabada do centro histórico de Santos. É triste, é um lugar caindo aos pedaços. A cidade não tem cara de capital, parece mais caiçara que muita cidade por aí e, apesar da beleza natural e da beleza que ainda resta em algumas construções antigas, é uma cidade deveras “enfeiada”. O Maranhão é o lugar mais politicamente atrasado do país, é o único lugar que ainda tem um dono. Mesmo sendo um estado de 4 senadores (afinal, Sarney é senador pelo Amapá!), se tem algum benefício político é capitalizado apenas para os políticos. Tem um litoral privilegiado para portos, e uma posição logística excelente (muito mais próximo dos EUA e da Europa que Santos ou Tubarão), mas não há vigor na economia local (muito diferente do que vi em Recife, por exemplo, cidade pujante).

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Eu gosto demais das benesses do progresso. Pegar um avião, botar um iPod na orelha, e abrir um livro comprado no aeroporto, ter a garantia que um corticóide te salvará de uma dor que causava suicídios outrora, é excelente. Mesmo que o livro aberto seja Ortodoxia do Chesterton e a música ouvida seja uma missa de Palestrina (minhas opções), isso só demonstra outra coisa ainda mais fantástica dos tempos atuais: você poder escolher “em que época você quer viver”. Um contemporâneo de Bach, por exemplo, apesar de ter acesso a “música popular” melhor, teria menos chance de escutar música mais antiga do que eu, mesmo em uma sala de concerto.

Mas não boto minha fé no progresso. O progresso não é garantido, não é linear, pode-nos levar a melhor ou a pior. Gosto do que ele me trouxe, gosto demais, mas não o coloco em um altar e lhe presto culto, apenas agradeço às gerações passadas e presentes pela genialidade e pelo trabalho.

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Falando em Ortodoxia do Chesterton, comprei o livro meio que “no susto”. Ao passar pela livraria Laselva, no aeroporto de São Luis, olhei a vitrine como sempre olho, para saber quais são os livros de auto-ajuda do momento e vi, em destaque num canto da vitrine lateral, “Ortodoxia”. “Não pode ser o do Chesterton” — pensei — e, ao ver que era (e custava menos de 20 reais), entrei, chamei um atendente — “quero o Ortodoxia do Chesterton” — que ficou meio perdido, mostrei-lhe o livro na vitrine, e ele pegou uma cópia para mim em uma das bancadas da frente. Surpreendeu-me realmente e positivamente ver uma edição brasileira do livro, e não pude me furtar a comprá-lo. Para fugir do meu vício de comprar e botar na estante, comecei a lê-lo quase imediatamente, deixando para trás a leitura que havia começado no aeroporto de São Luis.

Li os prefácios no aeroporto e aqui no avião (onde fiz uma pequena pausa para fazer os meus relatórios de horas e despesas e escrever estas linhas), os dois primeiros capítulos. Já recomendo. O livro está tabelado a R$19,90 — uma pechincha — e você encontra com descontos por aí (para clientes do Mais Cultura está a 17,91), a edição é bacaninha e a leitura é leve mas profunda. Assim que cessar a turbulência voltarei para ele (ou para a carta Encíclica Spe Salvi, de Bento XVI — o livro que comecei a ler em São Luis –, que também recomendo e pode ser baixada gratuitamente do site do Vaticano ou comprada a preços módicos em livrarias, em edição conjunta da Paulus e da Loyola), pois estou instigado com sua entrada no tema com a questão da loucura e da razão.

Chesterton diz, com maestria, que o louco, o lunático, não é aquele que perdeu a razão, mas aquele que perdeu tudo menos a razão. E diz que só pode apreciar a loucura aqueles que são sensatos. Para o abilolado, a loucura é absolutamente normal, e ele não vê naquilo graça alguma. Por isso os poetas estão distantes da loucura: ao abrir mão dos excessos de razão, imaginam, e imaginando fogem do que é normal, correm muito menos risco de serem loucos. Não dá para concentrar 20 páginas de um mestre em metade de um parágrafo de um pedante um pouquinho culto da Tatâmbia como eu, vá lá e leia. Se não quiser gastar, deve haver e-books legais por aí — a obra é centenária, e é por essa comemoração que foi publicada no Brasil.

É isso aí, vou tentar escrever com mais freqüência (agora principalmente que parei de passar mal em aviões, há um tempo bom a ser aproveitado aí) de novo! Obrigado por me ler e até mais!

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