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Archive for fevereiro \11\UTC 2008

Bons tempos em que só os rebeldes usavam tatuagem. Era preciso coragem, era doloroso e uma marca para a vida. Olhavamos para os tatuados e dizíamos: você teve coragem para fazer essa marca para toda a sua vida? Você envelhecerá, sua pele enrugará, e a tatuagem ficará feia. Geralmente recebíamos como resposta algo como: “eu sabia de tudo isso quando fiz a tatuagem”. Hoje em dia vemos “mocinhas de família” com nucas borboletadas e calcanhares estrelados. Se fizermos as mesmas perguntas que fizemos para o rebelde, receberemos um olhar de espanto ou, se a moça for mais inteligente, a esperança no progresso: a cirurgia destatuadora existirá quando ela estiver enfadada.

Quando o Júlio diz que o casamento é para rebeldes, é nisso que eu penso. Nossa pele enrugará, perderemos o desejo, enfadaremo-nos um do outro. E estamos marcados para sempre com o matrimônio. Os covardes dos anos 40 alimentavam a esperança na cirurgia descasadora: o divórcio. Ele veio a existir e o casamento, assim como a tatuagem, perdeu a graça, virou modinha. Só quem casa para sempre tem o prazer que aqueles rebeldes tatuados de 20 anos atrás tinham. Numa dimensão muito maior e mais profunda — é bom ressaltar.

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A minha perda de tempo favorita, Frets on Fire (uma espécie de Guitar Hero para jogar no teclado do computador), tem um sistema de pontuação simples: cada nota que você acerta vale 50 pontos. Se for uma nota longa, valerá mais. Conforme você acerta mais notas em seqüência você vai ganhando multiplicadores: suas notas passam a valer o dobro, o triplo, o quádruplo. Se errar, perde os multiplicadores. Sendo assim, se você erra 10 notas em seqüência você perde menos pontos do que se errar 10 notas espalhadas pela canção.

As músicas em geral tem bases chatas e solos difíceis, por exemplo, Cowboys from Hell do Pantera. Já acertei o solo inteiro, mas sempre erro a base. Quando vou melhor na base e pior no solo, consigo mais pontos que com um solo perfeito e diversos erros na base.

E isso é certo: um ato de heroísmo não compensa uma vida medíocre. O heroísmo diário, aquele de acertar o que não chama a atenção, vale mais pontos no fim das contas. Acertar aquele solo inteiro às vezes ajuda a minha pontuação a não ser tão baixa, mas eu nem chego a marcar uma pontuação digna de figurar entre as minhas melhores. Teresa de Lisieux vale mais que muitos heróis. Viveu o chato e invisível heroísmo diário. Ninguém viu o solo, a música que ela escolheu tocar não tinha um: foi o jeito que, na sua humildade, escolheu para ser perfeita.

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Do I look like a puritan? Um amigo achou estranho o fato de conversar sobre cigarro e beber na maior sem-cerimônia. Expliquei para ele que eu não era um puritano, mas preferia não ter que explicar. Como alguém que toca “Cowboys from Hell” pode ser puritano?

Aliás, tenho uma estratégia de marketing para os centros ascéticos: deveriam remodelar os hábitos para que ostentassem a seguinte mensagem: “Quer ser feliz? Pergunte-me como”.

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