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Archive for fevereiro \15\UTC 2006

Ele contou a melhor mentira da história

Uma resenha sobre “Adeus Lênin”

AVISO: Se você não assistiu ao filme, não leia o texto. Ele contém spoilers, ou seja, partes importantes da trama que estragam a surpresa se você as souber antes.

***

De que é feito o socialismo? De solidariedade, união, desapego; dirá a esquerda. A direita responderá: de tirania, miséria, falta de liberdade. A melhor resposta vem do filme “Adeus Lênin”: o socialismo é feito de mentiras. Mentiras que servem a “proteger” um povo da realidade. Da competição, do trabalho, da liberdade. A realidade é perigosa, pode chocar, pode trazer desconforto. Mas nela se encontra a verdade. Um mundo de mentiras, o tal do “outro mundo possível” (do Fórum Social Mundial) ou “mundo melhor” (dos teólogos da libertação *), não nos faz crescer, mas convalescer.

Convalescer é o que faz Cristianne durante o período de um ano que é central à trama. Já chego a ele. Depois de mostrar a infância normal de Alex, sua paixão pelos “cosmonautas”, suas outras brincadeiras comuns, o pai dele (Robert) viaja para a Alemanha Ocidental. Dado isso, dois agentes do governo vêm questionar o que ele faz “pela terceira vez seguida em um país capitalista”. Não agüentando tanta pressão, Cristianne expulsa-os de sua casa. Perde a fala pouco tempo depois e Robert nunca mais volta. A perda da fala subseqüente à visita dos inspetores é um indício de que tortura houve, mas já fui contestado quanto a essa interpretação.

Ao recuperar-se do choque, Cristianne começa a dedicar-se sobremaneira ao Estado socialista. Professora, redatora de reclamações (nos parece um pouco estranho isso, no capitalismo se temos um problema vamos à loja e reclamamos; no socialismo eram escritas cartas ao governo para reclamar de uma roupa de medida errada), fiel trabalhadora e membro d’O Partido.

Passam-se dez anos. Outubro de 1989, é aniversário de quarenta anos da Alemanha Oriental. Grandes paradas militares, exposição de armas de destruição em massa, homens do governo reverenciados. Cristianne será condecorada novamente neste dia. No mesmo dia, seu filho Alex se envolve com uma manifestação pacífica pela liberdade de imprensa. Manifestação violentamente repreendida. Em seu caminho para o palácio, Cristianne vê seu rebento sendo espancado e preso, tem um enfarto, e desmaia. Por oito meses.

A Primeira Queda do Muro de Berlim.

Fim de 1989 é o retorno da Alemanha Oriental ao capitalismo. Grandes mudanças, como a queda do muro que separava as duas Berlins, fim da fiscalização fronteriça, produtos diversos nos mercados, renascimento da liberdade e nascimento do consumismo. Quando Cristianne acorda, Arianne (sua filha) trabalha no Burger King e namora o ocidental Rainer.** Alex continua trabalhando com TVs, e namora uma enfermeira russa: Lara. A Alemanha não é mais a mesma. Não podendo ter emoções fortes, Alex a leva para casa, onde pode esconder dela todas as mudanças, criando a Alemanha Oriental em seu pequeno apartamento.

Nisso, ele cria um mundo de mentiras, com ajuda do seu colega de trabalho Dennis, atraindo a atenção dos entusiastas da cortina de ferro. Notícias antigas primeiro, depois modificadas, chegando ao cúmulo da afirmação de que a Coca-Cola era uma invenção socialista e que os ocidentais estavam fugindo em massa para a Alemanha Oriental, afastando-se da competição capitalista. O mundo mentiroso que Alex cria para a mãe é, na verdade, uma versão menor do mundo mentiroso que o socialismo cria para as pessoas. Imaginando que a protege, Alex priva-a da verdade. O socialismo, na intenção de proteger as pessoas da “competição” e da “desigualdade”, livra-as de responsabilidade, e impede seu acesso à verdade e à liberdade.

Nos dias de convalescença que seguem, aparecem diversas pequenas críticas ao capitalismo, seja na fala dos entusiastas, nas relações comerciais, nos discursos da TV fictícia, mas no fundo surge, camuflada, a crítica gigantesca à repressão, à mentira, à falta de liberdade, ao paternalismo que o socialismo submete as pessoas. Lara é uma grande opositora das ações de Alex, e Arianne de certa forma compartilha dessa visão. A mais fina e engraçada das críticas ao capitalismo é a busca de Alex por rótulos de produtos antigos, de forma a enganar a mãe, colocando produtos novos dentro deles. Não há, para ela, diferença de sabor alguma entre os dois: o consumismo, o marketing, criam diferenças inexistentes.

A Segunda Queda do Muro de Berlim

Após a melhora de Cristianne, eles a levam para visitar um antigo chalé. Nessa viagem ela conta que queria fugir junto com o esposo Robert para o ocidente, mas não o fez com medo da repressão estatal, de que tirassem dela os filhos. Cai o muro de Berlim do espectador, que até então via nela uma apreciadora e defensora firme do socialismo. Pois é essa emoção que a leva a um segundo enfarto.

Alex inicia sua busca pelo pai Robert, que deseja ser visto por Cristianne. Encontra-o, também encontrando seu ídolo de infância, o cosmonauta Sigmund Jähn, agora motorista de táxi. Robert tem progresso material, uma casa boa, uma nova família, e amigos, mas não condiz perfeitamente com a imagem burguesa que Alex dele fazia. Leva-o para ver a mãe com cuidados excessivos de que ele não conte nada dos acontecimentos recentes a ela.

A Terceira Queda do Muro de Berlim

Nesse interim, Lara conta tudo a Cristianne, que se choca, é fato. Cai, finalmente, o muro de Berlim que ainda existia em sua mente. Alex não sabe que ela sabe, e como a situação dela se degrada, ele prepara uma nova mentira: a do fim apoteótico da divisão entre as Alemanhas. Convida Sigmund Jähn a filmar uma notícia falsa em que se torna o novo chanceler e abre as fronteiras da Alemanha Oriental aos refugiados ocidentais. Cristianne assiste à notícia com um sorriso no rosto, e morre pouco tempo depois.

Conclusões

O filme, para quem não perceebeu, é uma crítica muito feroz ao socialismo alemão. Toda a trama começa porque Alex apanhou da polícia comunista, em uma manifestação por liberdade. O nome do filme é “Adeus, Lênin!”. É o adeus dado ao leninismo que feriu tanta gente. A cena da estátua de Lênin sendo levada é o ponto alto do filme.

O consumismo, aspecto coletivista do capitalismo, é satirizado em boa parte da trama. Os “boníssimos produtos do capitalismo”, os pepinos holandeses, a sidra ocidental, têm para a mãe o mesmo gosto daqueles estatais de antes.

Adeus Lênin é um drama, com humor bem-medido, mas é muito mais que isso. Talvez possa chamar de “mitologia política”. Cada personagem representa, em sua atuação, uma força política diversa daquela que faz parte na interpretação superficial.

Nessa interpretação superficial, Alex é o rapaz que luta contra a opressão do sistema socialista, Lara é uma moça com ideais semelhantes e Cristianne é a senhora conivente (e até contribuinte) com o socialismo. O significado de suas atitudes é outra: Alex representa o socialismo, Lara representa o capitalismo (mais especificamente, a inexorável queda do muro de Berlim) e Cristianne representa a população, o elemento passivo. Alex e Lara, homem e mulher, montam o choque de opostos ativos.

Alex, na reconstrução do mundo socialista da mãe, é tomado pela cultura socialista, ironicamente a mesma que ele combatia e criticava antes dela ferí-lo. O ápice dessa tomada se dá quando Alex afirma que “descobriu” que a verdade não existe, e que ele podia moldá-la de acordo com seus ímpetos: é esse o cerne do socialismo.

É até cômico que Cristianne acredite no engodo preparado por Alex. Mas é trágico quando pensamos que milhões caíram na mentira muito maior do socialismo. Eu fico até pensando quem será que contou a melhor mentira: Alex ou Lênin.

—–
* Um grande amigo meu, simpático à Teologia da Libertação, sempre me critica quando digo algo impróprio desse movimento. Desta vez ele não pode reclamar. Na Bíblia Sagrada edição pastoral (da Edições Paulinas) o termo “mundo melhor” está grafado exatamente dessa forma, sem vinculação necessária com o Reino dos Céus.

** Alguns alegam que Arianne teve que largar a faculdade para vender hambúrgueres: falso. Ela optou por trabalhar com hamburguers, essa uma possibilidade que o capitalismo trouxe para ela. Nunca quis ela estudar economia, mas o comunismo faz as escolhas para você.

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Guerra (nada) santa

O Deus dos muçulmanos é o mesmo dos judeus e cristãos; Alá é Deus em árabe, tanto que os cristãos de língua árabe rezam para "Allah". O mesmo argumento etimológico valeria para dizer que o Ζευς grego é Deus, mas o que impede isso é a característica politeísta da mitologia grega, contrária ao monoteísmo radical das três grandes religiões.

Mas quero me dedicar aos muçulmanos, que tão em voga se encontram. Para os muçulmanos, o Corão é o Verbo Divino. Assim como Jesus Cristo para nós cristãos. Isso significa que tudo que está escrito lá, para eles, é a revelação de Deus. É o próprio λογος de Deus. Isso tem algumas implicações.

Uma é óbvia: a certeza na Revelação é muito maior. Nós acreditamos que Deus veio como homem, e nos deixou em contato com a Verdade; Depois disso, homens santos relataram sua vinda, e outros complementaram. Há alguma incoerência que é corrigida tirando os livros incoerentes das escrituras (os tais livros apócrifos), e lemos aqueles que vivenciaram a Revelação. Para os muçulmanos, Muhammad (Maomé) escreveu o que lhe foi ditado por Deus. Só há uma versão e não há incoerências. E, a cada leitura, o fiel tem contato direto com a Revelação.

Outra é essa: quando certos soldados jogaram o Corão na privada, os muçulmanos ali presenciaram de forma atual e viva, o que nós cristãos revivemos em lembranças da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, a violência contra o prórpio Verbo.

Antes que veja-se nisso uma justificativa para a ascenção do Hamas ou para a bomba atômica iraniana, lembre-se que os cristãos não saíram matando judeus e romanos, foi exatamente o inverso que aconteceu. E tudo isso que eu disse, foi só um prefácio para a citação de um trecho do Corão:

"A tinta do sábio vale mais que o sangue do mártir".

Isso não contraria a noção de guerra santa islâmica, mas a coloca como inferior ao pensamento, à inteligência, à diplomacia. E isso era tudo que eu queria dizer em respeito à geopolítica do Oriente Médio.

Obrigado por me ler e até mais.

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