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Archive for maio \12\UTC 2008

A Irmã Morte (como o Chico a chamava) é uma grande amiga. Ela nos ensina uma coisa simples, mas importantíssima: a responsabilidade. Quem me mostrou isso foi o Viktor Frankl, no seu excelente “Man’s Search for Meaning” (Em busca de sentido, em português”. Só porque morremos, porque temos prazo de validade, é que devemos ser responsáveis. Temos um prazo a cumprir, e por isso não podemos ficar na rede. Aliás, só faz sentido medirmos dias, meses, horas, minutos porque um dia morremos, vamos embora. Se vivêssemos para sempre, qual seria a utilidade disso?

O que dura para sempre prescinde do tempo, e esse é o grande segredo da eternidade. O Amor, por exemplo, não foi criado, não tem prazo de validade, ele simplesmente existe. A nossa existência não é simples. Sejamos cristãos, ateus ou da cabala discordiana da sagrada fanta uva, sabemos que somos criaturas, mas que o amor não é. (Essa é a prova racional de que Deus é Amor. Prove que Deus existe, e que é criador e único. Agora prove que o Amor é eterno. Se é eterno, não foi criado, e se não foi criado, é o Deus Criador).

Quando perdemos a noção da morte (e atualmente, pelo menos onde vivo, perdeu-se bastante), tornamo-nos irresponsáveis. Se achamos que viveremos para sempre, não cumprimos com o nosso dever, não encontramos (e aí era onde o Frankl queria chegar) o sentido da nossa vida. Porque ela tem um sentido, e só podemos considerar-nos plenamente libertos quando o encontramos.

Se eu morresse amanhã (já dizia um poeta), eu olharia pra trás e falaria o quê? O que eu poderia dizer que fiz, que cumpri, que ajudei? Deus ia olhar pra minha cara de “me dá uma escala no purgatório” e ia falar: “o purgatório é para os bonzinhos, nem isso você foi. Vai pro inferno, literalmente”. E a ira de Deus seria justa. Não propriamente o medo do inferno, mas a noção de que há Justiça e que um dia morrerei (e pode ser amanhã) que me impele raras vezes para que eu viva dignamente. Deveria eu pensar mais na morte.

Quem acha que viverá para sempre, seja numa auto-enganação, seja não pensando no assunto por medo, seja crendo em baboseiras como a reencarnação (uma maneira de dar alguma cara de possibilidade para a inepta e vagabunda vida pra sempre, ou de afastar o medo da eternidade), perde o aspecto do tempo, e está muito mais sujeito a desperdiçá-lo do que alguém que tem plena consciência da vida única. Há de se lembrar, contudo, que a “vida pra sempre” é bem diferente da vida na eternidade. Esta é a nossa vocação humana, contemplar o tempo, o espaço e a beleza. E, para que possamos cumpri-la, precisamos tomar consciência dela através da ajuda da nossa amiga morte.

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