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Archive for the ‘Teologia’ Category

Resoluções de ano novo

Eis que mais um ano se encerra. Dois mil e oito. Nesse ano aconteceram muitas coisas de ordem pessoal na minha vida. Ora, que besteira! Aconteceram muitas coisas de ordem pessoal na vida de todos. Um ano é um ano e, não fosse pelos nossos atos, um seria igualzinho ao outro, salvo mudanças climáticas (ih! acho que o discurso em voga é o total oposto disso…)

No meu fuso horário, que não é mais que uma convenção, faltam menos de 2 horas para que o ano de 2008 se encerre. A Terra se encontra no mesmo ponto em relação ao Sol que estava há 366 dias. Embora o mesmo valha para ontem e ante-ontem. Outrora o ano era marcado pelo início da primavera. Para outros, pelo aniversário de algo. Mas, repito, um ano é um ano, a convenção não interessa, todos comemoram de alguma forma o ano novo, que é sempre da duração de um ano, excetuando alguns erros de cálculo aqui e ali. Comemore o ano novo quando você quiser, mas comemore-o.

Há algo da natureza impresso no ano, como há também nas semanas e nas estações do ano e nos meses. Todos são, não invenções humanas, mas realidades naturais. A Terra demora aproximadamente 365,25 dias para dar uma volta em torno do Sol, que, do ponto de vista da Terra, passa aproximadamente 30 dias voltado para cada constelação zodiacal. Principalmente nas zonas subtropicais, no decorrer do ano, é possível verificar quatro macro-comportamentos na natureza, decorrentes da inclinação do eixo da Terra em relação ao Sol. Também há quatro dias especiais, em que o dia é o mais curto ou o mais longo do ano — os solstícios –, ou a duração de dia e noite é idêntica — os equinócios. Qualquer um que não seja um fundamentalista vai conseguir ler tudo isso no Gênesis. Não só no Gênesis, mas também no paganismo. Cultuar Terra e Sol foi o que fizeram ao ver que eles eram uma realidade dada — inalteráveis pelo homem — e imutável e que, por outro lado, nos influenciava enormemente.

Por isso, a prática de resoluções de ano novo — e reitero que não interessa quando é o “seu” ano novo! — é muito salutar. Assim como a prática das resoluções de mês novo (“entro na aula de dança mês que vem”), de semana nova (“começo o regime na segunda”) ou de dia novo (“amanhã não faço de novo essa burrada”). O ano, por ser mais longo, dá tempo para os percalços nos propósitos, da queda e do levantar-se.

Se você já se convenceu a fazer resoluções de ano novo, pode parar de ler. Farei cá as minhas — isto é um blogue pessoal, oras! Preparei-as recentemente, e não sei se as cumprirei. Mas é claro que tentarei.

  1. Cumprir as resoluções menores, e os planejamentos pequenos — se disse “amanhã farei isso”, que o faça.
  2. Alternar rotina e mudança. Ter hábitos rotineiros como acordar cedo e fazer exame de consciência antes de dormir, e ao mesmo tempo ter ímpeto de certas mudanças necessárias e/ou salutares.
  3. Terminar o mestrado. Ora! Já levei tempo demais.
  4. [Intimamente ligado com o anterior] Trocar de emprego. Gosto muito do meu emprego atual, o relacionamento com a empresa é fantástico, mas não é para isso que eu estudei, não é a minha vocação natural ou preparada.
  5. Mudar-me para São Paulo ou Rio de Janeiro. Não dá para negar, o Brasil acontece nesses dois lugares. [Dá para perceber que está ligada com as duas anteriores].
  6. Melhorar sempre os hábitos, adquirir virtudes, livrar-me dos vícios — dedicar-me aos meus compromissos pessoais, profissionais, a meu apostolado e outras iniciativas, e principalmente aos teleológicos.
  7. Não desistir de visitar o bom velhinho, como acabei por fazer em 2008.

Sete resoluções, dá pra lembrar de uma cada dia da semana, não? Se quiser, escreva as suas aí na caixa de comentários ou deixe um link pro seu blogue, caso tenha-as escrito por lá.

Estou com a sensação de que esqueci algo. Esqueci?

Ah! Feliz Ano Novo.

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São Tomás de Aquino nos ensina que Deus nos dá duas energias fortíssimas: a ira e o έ̔ρος (eros). Com a ira podemos tirar força de onde não existe, podemos nos insuflar contra o mal e fazer atos heróicos que não nos seriam possíveis em nosso “eu comum”. O senso comum já nos diz que o raivoso se transforma. O uso correto, contudo, da cólera é contra o mal, e não contra o mau. O ódio se faz útil quando não é voltado para o malfeitor. O malfeitor pode se converter, e o ódio a ele se torna um elemento ruim. O mal sempre será mau, e a Tradição nos diz que não pode amar o bem aquele que não odeia primeiro o mal.

Uma analogia riquíssima vale para essas energias: entendamo-las como a água. Se a água fica presa em barragens, é tão forte que acaba por destruí-las, para não destruí-las, precisa de uma válvula de escape, que nos faz perdê-la. Se a água vai para onde quer, provoca destruição, catástrofe. Se a água é canalizada ela traz a vida e o bem. Voltemos à ira: se guardamos nossa raiva, precisamos de uma válvula de escape (um saco de pancadas, por exemplo) e nossa raiva não serviu para nada; poderia ser pior, poderíamos explodir: e explodindo causaríamos destruição! Todo mundo sabe como são ruins os “esquentadinhos”. Se, por outro lado, canalizamos nossa cólera, poderemos combater as injustiças, empurrar o carro do nosso amigo, encher de tapas e trazer de volta à realidade uma pessoa que esteja ficando maluca.

Esta coleção de artigos fala da lascívia, é isso que significa πανκαταπυγία. ( πυγή significa “anca”, “nádega” (daí calipígia). κατά é, entre outras coisas, o movimento de cima para baixo (daí catarse, catatônico). καταπυγή significa, literalmente, “nádega que vai de cima para baixo”, ou seja, sodomita. Esse era um insulto mais ou menos grave na Grécia (contrariando todo o consenso entre os professores de história que dizem: na época, todo mundo era gay). Desse insulto, adicionando o prefixo παν (tudo, daí panamericano, panteísmo, etc.), têm-se o grego para “lascivo”. Coloquei um ια no fim, e pronto. ) Mas, se no senso comum a idéia que se têm de ira é idêntica à da Tradição, quanto ao eros isso não vale. E agora peguem tudo que eu falei da ira, e apliquem, strictu sensu, ao eros.

Vamos por partes: quem se “reprime” demais no sexo, acaba explodindo. Acho que nem os puritanos discordam disso. Ou então, precisa de uma válvula de escape: pornografia, masturbação. Quem explode: os tarados, estupradores, pedófilos são malvistos também, sabe-se que eles não vivem de maneira sadia a sua sexualidade (com exceção talvez para o jovem “pega todo mundo”, que tem até pose de bom moço). Então como “canalizar” o eros? A resposta natural é: monogamia.

Eu defendo a monogamia mesmo para os não-crentes. Eu poderia tratar aqui de como o sacramento do Matrimônio é importante, mas a monogamia é mais de 50% da sexualidade sadia. Contudo, e isso é um dos elementos principais da situação lasciva hodierna, a formação dos casais têm acontecido cada vez mais tarde. E sabemos — todos nós temos vísceras, ou não? — que o impulso sexual vem cedo. Como lidar com isso sem prejudicar a si nem aos demais?

Um parêntese: Aviso àqueles hodiernos demais, que pensam que aqui faço um “moralismo puritano” que mudem de idéia, estou tentando achar a receita da felicidade, a ética no sentido clássico (aristotélico), e corroboro com meu amigo Julio Lemos: «Com um pouco de observação, percebemos que nossos deveres vão além do ser inofensivos. Veremos que o melhor é ser melhor: crescer em cada uma das virtudes, até os mínimos detalhes, aprendendo a ter prazer naquilo que é bom, e não naquilo que agrada só aos sentidos.»

Uma pessoa que não faz sexo — um celibatário ou um casto, por exemplo — precisa também canalizar o eros, e não reprimi-lo. Há padres que reprimem o eros e nós sabemos qual é a válvula de escape deles. Na melhor das hipóteses, é o dirty talk. O eros, e aí está uma coisa que a sociedade moderna esqueceu (sim, esqueceu, pois já soube), é um dos elementos constitutivos do amor. Bento XVI deixa isso bem claro na encíclica Deus Caritas Est (vá lá, leia, e veja se não faz sentido, mesmo que você não seja católico). E é possível (ora, o que não é possível é que façamos sexo com todas as pessoas que amamos) “amar sem trepar”. Só que a energia do eros é muito forte, a mais forte que recebemos. Portanto não pode ser uma mera “filia”, um amor de amigo. Deve ser um amor plenamente comprometido, por uma vasta gama de pessoas. Pode ser também a santificação do trabalho: despejar o amor erótico no trabalho, por que não? Isso é difícil de aprender; para o católico, o caminho é mais fácil: vida de adoração a Deus, comunhão diária, tudo isso “canaliza” o eros. Quem nos ensina isso muito é Santa Teresa D’Ávila, que sofreu com tentações de luxúria a vida inteira (segundo o exame grafológico presente no livro “I Santi dalla loro scrittura”, de Girolamo Moretti, ela tinha a personalidade de uma ninfomaníaca): foi quiçá a maior mística da história (volte ao prólogo agora, se desejar).

O eros dedicado a Deus é nos ensinado desde sempre: basta ver quão sedutora é a passagem bíblica da pecadora que lava os pés de Jesus e os enxuga com os cabelos (há nos sinópticos, mas eu prefiro a versão de João, capítulo 12). Ora, quem dirá que não havia eros nos atos daquela mulher? E que foi-lhe respondido? Que ela muito amou, e por isso muito tinha lhe sido perdoado.

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Disclaimer: Este não é um post político nem cinematográfico

Todos nós temos um conjunto de valores que tomamos como primordiais para a nossa vida e outros que rejeitamos. Eu vejo, pelo menos no Brasil, uma péssima tendência da liberdade cair para o segundo grupo. Falo liberdade em um sentido amplo, não simplesmente a liberdade econômica, ou mesmo a liberdade civil (a despeito do que possa fazer parecer o título deste escrito), mas a liberdade que chamamos de “livre arbítrio”.

O que é o livre arbítrio? É, em todas as situações de sua vida, ser confrontado com um espectro amplo de opções, ter plena liberdade de escolher quaisquer caminhos, e assumir todas as responsabilidades de sua escolha. Isso, do mesmo modo que eu disse que acontece com a derrota, nos faz crescer, aprendendo com os erros. Isso nos torna verdadeiramente humanos. A liberdade é a principal diferença do homem para os demais animais: estes são escravos do instinto.

Mas não queremos: queremos soluções prontas, queremos uma escolha única, tal que nos engane: acreditamos que escolhemos, quando não tínhamos opções, achamo-nos livres, quando uma corrente nos prendia. Um exemplo, estou muito teórico: não é tão incomum entre adolescentes vestibulandos o desejo de ser aprovado em apenas uma das faculdades que tentou (ou pelo menos das que tem como primeira preferência): isso evita a escolha. No futuro, na hora da escolha profissional, o desejo é de que todas as portas se fechem, exceto por uma. Desnecessário dizer que, isso buscado de uma maneira ativa, não haverá a excepcional porta aberta.

Outro exemplo que me vem à mente: um rapazito, cheio de hormônios, corteja diversas garotas. A primeira que lhe dá bola recebe seus afetos de uma maneira especial. Se vem uma segunda, que ele acha que prefere, a escolha se impõe, “Ó aporia!”. Se larga a primeira, se esquece da segunda, se trai a primeira com a segunda ou com a terceira que ainda está por vir, tudo isso se impõe como “dilema moral”, quando não é nada disso, apenas o rapaz sequer cogitava ser livre para decidir, e depois inventa “fiquei com a primeira, mas gosto de verdade da segunda, e agora, o que eu faço?”. As contas bancárias dos psicólogos juvenis agradecem. (Pois é: incapazes de decidir antes, incapazes de decidir depois, doam sua liberdade a um terceiro que nunca os viu mais gordos e, numa hipótese otimista, apenas domina técnicas de conhecimento de seres humanos em bloco).

Ora, não é este um artigo político, mas não posso deixar de falar: no Brasil, queremos que o governo faça tudo. Não queremos ser livres nem para ajudar o mendigo, ou mesmo o nosso vizinho.

Estamos perdendo diversos valores importantes por confusão de conceitos: nos varões, virilidade se tornou sinônimo de machismo, nas mulheres, valorosidade virou sinônimo de submissão. Ora, não é nada disso. A mulher valorosa não é submissa, muito pelo contrário: sua índole a impede; o homem viril não pode ser machista, o machismo nada mais é que uma muleta aos homens que carecem de virilidade.

A liberdade entra na conta também, mas por outro motivo. A liberdade traz obrigações, cujas contas prestaremos, todos nós (até o Renan Calheiros), à nossa consciência. Isso é demais para o nosso espírito, que se tornou preguiçoso demais. Se os músculos de minhas pernas definham ao ponto de não conseguir eu andar, perco essa liberdade. Ou, em João 21:18 “Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres.”. Da mesma forma o nosso espírito, quando definha, perde a mobilidade. Um espírito inerte só pode ser levado pela torrente dos fatos.

É preciso que verifiquemos em nós essa desvalorização da liberdade, façamos uma “fisioterapia espiritual” para tornar nosso espírito móvel novamente, em seguida voltemos nossa vontade para a plena realização do dom da liberdade e, só assim, daremos adeus a esse “Lênin mental” que nos imputa uma ditadura solicitada.

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Na comunidade Católicos do Orkut, comunidade excelentíssima que a todos que queiram crescer na fé ou conhecer decentemente o Cristianismo Universal recomendo, surge uma pergunta: “O estilo de música rock é incompatível com o [C]ristianismo?”. A discussão também tomou feições de se rock era apropriado para a igreja ou não. Eis a minha resposta:

O Cristianismo é a sacralização do mundo, a sacralização do profano. Sacralização não significa divinização, se não caímos no panteísmo.

O que eu quero dizer é que tudo, do mundo, pode ser bom. A comida é dom de Deus, a gula é pecado. Os bens são dom de Deus, a avareza é pecado. A palavra é dom de Deus, a mentira é pecado. A força violenta é dom de Deus, a violência contra o próximo é pecado.

Os timbres e harmonias do Rock, essencialmente existentes desde a Criação, não são ruins em si.

Decerto é fato que a sonoridade tem efeito em nós. Todas as tradições religiosas sabem disso e escolhem tradicionalmente a sonoridade para o efeito que querem. Destarte, o canto gregoriano e a polifonia renascentista foram escolhidas, pela Tradição da Igreja, como apropriadas para a devoção, a adoração e o sacrifício do rito da missa.

No Hinduísmo e no Budismo, há toda uma sorte de mantras, com os efeitos estudados e muitas vezes comprovados. No Islamismo, no Judaísmo, na Umbanda, há música litúrgica que serve a alcançar um fim específico. No Cristianismo Universal, nem herético e nem cismático, Verdadeira religião de Cristo, havia uma tradição, o espírito almejado era alcançado, e por isso mesmo a música litúrgica tem que ser esta: Canto gregoriano e (com ressalvas) polifonia renascentista.

Mas, na mesma toada, volto ao Rock. A grande e única preocupação que se deve ter com a música secular é: a letra e o ritmo propiciam o quê? Um ritmo que propicie uma “sensualidade” ou uma “violência” não deve ser escutado em grandes manifestações a não ser que a pessoa “agüente o tranco”. Contudo, a sensualidade e a violência têm fins bons e, portanto, a música que incite isso não é ruim per se.

A outra preocupação não diz direito à música em si, mas aos músicos: não se deve idolatrar músicos, por melhores, mais bonitos e mais tocantes que eles sejam. Essa era uma grande preocupação do Papa Bento, que foi chamada pela mídia de “Rock é coisa do Diabo”. Como vemos, eles não perdem tempo em difamar o Santo Padre.

Ademais, qualquer canção que, em sua letra, use de mentira, idolatria (satanismo está aí incluso), vanglória, qualquer palavra pecaminosa deve ser evitada*. Mas não é o som da música que propicia o pecado aí mas a letra. E isso valeria para qualquer coisa escrita, não só letra de música.

E finalmente, para fechar minha fala em um círculo: toda a criação de Deus pode ter um uso bom. O rock pode ter um uso bom, excelente. Não é apropriado para o rito litúrgico e acredito que também não seja adequado para um grupo de oração ou uma procissão (opções nas quais eu fico com a música popular cristã tradicional: “Te amarei Senhor”, entre outras). Mas para uma devoção pessoal, para a pregação do Evangelho, ou mesmo para outros sentimentos profanos (mas sacralizados por Cristo) que têm uso para o bem, o rock não é nenhum problema.


* Eu costumo escutar um disco do grupo “Dream Theater” chamado “Scenes from a Memory” que tem letras “espíritas”, no sentido que advogam a reencarnação. Como eu disse, isso deve ser evitado. Eu escuto por gostar da música, mas devo acautelar-me de que não posso sair cantando tudo, pois estaria repetindo, mesmo sem acreditar em, falsidades.

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