Já declaro aqui meu voto para governador de São Paulo: o picolé de Chuchu, Geraldo Alckmin.
Contudo, o “socialista” Paulo Skaf trouxe um debate muito interessante com duas propostas polêmicas: cobrar mensalidades nas universidades públicas e abater do IPVA os gastos com pedágios.
A primeira eu sou completamente a favor, a segunda eu sou completamente contra.
O que é a Universidade pública no Brasil? Vou falar de alguns aspectos que vejo nas universidades paulistas, que são as que conheço melhor.
Pesquisa
É um local em que há pesquisa de excelência, ao certo, mas ainda aquém de padrões internacionais. Há muita boa pesquisa mas — ainda mais — macaqueação de pesquisas estrangeiras e jogo da lógica das publicações. Isso funciona assim: você descobre algo mais ou menos significante, escreve um artigo, e manda para uma revista ou congresso. Depois, descobre mais uma coisinha, e atualiza o artigo para a próxima conferência ou revista. Publicar é o fim, não a ciência. Isso não acontece só no Brasil, é claro, mas essa lógica é patentíssima e grassa nas universidades.
Ensino
O ensino não é lá maravilhas não, muitos professores ruins — que às vezes, mas só às vezes, são excelentes pesquisadores — sem didática, sem interesse pela docência, considerando aquilo um “mal necessário” (com essas palavras). Mas os alunos, selecionados em vestibulares rigorosos, costumam garantir o bom nível dos cursos, e uma formação diferenciada. Eu sei quanto o selo “Unicamp” pesa quando eu busco empregos — e, aliás, essa é a principal razão pela qual a sociedade sustenta a Universidade politicamente. É na esperança de seus filhos as cursarem e terem um “futuro garantido”. Parecido com o emprego público, mas um pouco mais honesto, porque dá espaço ao desafio e à prova da capacidade de cada um.
Gente Universitária
Apesar de exceções — maravilhosas, em geral — a Universidade é local de ricos e remediados. Sabe o estereótipo de playboy? Tem de monte. Mas cada um com uma máscara. Em alguns lugares é o clássico: o bombadinho de carrão que só quer saber de beber e festas. Em outros é o “hippie do dinheiro alheio”, o cara que não faz nada da vida — às vezes, nem tomar banho — e tem dinheiro dos pais (ou do Estado…) para isso. Às vezes é o revoltado comunista que não largaria o dinheiro do papai por nada, mas fica berrando pela socialização das terras, pelo fim da expropriação da mais-valia alheia ou — em alguns casos — pelo salário mínimo de R$2000,00 reais, afinal, é um absurdo que os pobres, coitadinhos, não tenham sequer 10% da sua renda familiar. Tudo isso dentro de um consumo de drogas ilícitas que é “só” 20 vezes maior que o da média da população e um consumo completamente irresponsável de álcool.
Tem também os que estudam e se dedicam, que são ridicularizados por sua turma, ainda mais se os chamam à consciência quando afirmam — corretamente — que levam a Universidade a sério. E, claro, um sem número de medíocres — o grupo no qual eu me encontrava quando lá — que, sem levar tanto a sério como os últimos, mas com o peso na consciência do fardo que representam, ou pressa de se formar e ganhar dinheiro, ou de entrar numa pós e fazer “só o que quer”, tentam fazer um uso melhorzinho da Universidade. Felizmente, são também muitos os medíocres, quiçá formem a maioria.
Isso é um retrato da graduação. A pós-graduação é um pouco melhor.
Dado esse retrato, qualquer discurso de “não podemos cobrar pela Universidade pública” que se baseie na formação da graduação é, na melhor das hipóteses, ignorante. Em geral é hipócrita mesmo. Há uma quantidade não-desprezível de pessoas que precisam de ajuda para se manter — recebem bolsas, ou moradia, para permitir seus estudos — e, cobradas mensalidades, esse número aumentaria, é claro. Mas da mesma forma que há seleção para bolsas auxílio, pode haver uma seleção para bolsas de gratuidade (por critérios sociais com garantias meritocráticas mínimas e justas).
A Universidade paulista é paga com o dinheiro do ICMS, um imposto que incide sobre todos (e, proporcionalmente, mais sobre pobres, é um imposto “regressivo”, praticamente). Dessa forma, uma conformação social em que as classes C, D e E correspondem à maioria acachapante paga (desproporcionalmente nos mais pobres) para os estudos (nem sempre levados a sério) de uma conformação social cuja maioria é das classes A, B e C. Se existe alguma coisa que eu consigo chamar de “injustiça social”, isso é a Universidade gratuita.
Em tempo, eu não tenho problemas com o fato de que as universidades de excelência sejam preenchidas, em sua maioria, pelos mais ricos. A Universidade não serve a fazer “justiça social”, mas a produzir uma elite intelectual (graduação) e conhecimento científico (pós-graduação). É triste que não se esteja sondando por talentos melhores nas camadas pais pobres, mas isso é um problema muito mais amplo.
Como contraponto à cobrança de mensalidade, concedo que a gratuidade é justamente o que torna a Universidade pública atraente, a sua isca para ter os melhores alunos. Com a cobrança, muitos podem preferir estudar em Universidades particulares razoáveis, em que não terão os custos de morar em outra cidade. Elas acabariam se tornando muito “locais”, perdendo os talentos do resto do estado ou do país. Food for thought
Deixe seus comentários a respeito aí embaixo! Podemos fazer uma boa discussão 🙂
Vamos adiante. A outra proposta é terrível. O grande lance dos pedágios é que só são pagos por quem utiliza a rodovia. Quem não viaja, não paga. Uma família que passe o fim-de-semana em São Paulo não paga pela outra que resolve descer a serra e entupir a Baixada Santista. No Maranhão, quem toma Guaraná Jesus, não deveria pagar pela logística do Antarctica.
Quando você propõe debitar do IPVA o gasto com pedágios, você inverte essa lógica. Quem não sai da cidade, paga o mesmo IPVA de quem viaja, porque abate nos impostos o preço do pedágio. Isso também é nocivo porque, de certa forma e indiretamente, o governo está pagando pela manutenção das rodovias, que é precisamente o que a concessão pedagiada tenta evitar. Por fim, eu concordo que, por causa dos pedágios altos, diminua-se o IPVA. De todos. Ao considerar o modelo paulista de concessão, que são pedágios caros nas principais para permitir a manutenção das vicinais (o que, embora choque os liberais mais extremos, não me parece um negócio ruim), o IPVA serve apenas à manutenção das vias municipais e, portanto, não precisa ter um valor tão alto.
Dá uma boa conversa isso tudo. Pode chegar de voadora nos comentários abaixo!
Posted via email from Depósito de tralhas