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Archive for the ‘Viagens’ Category

Reflexo da Guanabara

As moças sempre se desesperam quando atrasa. Mas não se preocupem, rapazes. Aqui no Rio ficou um pouco mais difícil de postar. É a quarta vez que venho ao Rio neste ano e já tenho uma próxima viagem planejada, em agosto, para um casamento. O Rio tem algumas coisas que é preciso “ver para crer”, e vou fazer um amontoado delas aqui, com algumas reflexões breves e superficiais.

O metrô é caríssimo, custando R$2,80, contra R$2,20 do ônibus e R$2,35 do trem. Há vários tipos de ônibus, alguns mais caros. Achei que fosse livre concorrência mas, ledo engano, é só uma flexibilização maior. Há vans também, mas não sei seu preço. Por que o metrô é tão caro no Rio se ele atende tão poucos lugares e demora tanto a passar (mais de 8 minutos entre trens no domingo!)? Resposta: ele é seguro e não pega trânsito. O transporte público no Rio é muito mal planejado, o que leva a congestionamentos tremendos, apesar de uma engenharia de tráfego até um pouco melhor que a de São Paulo (o aterro do Flamengo, ao contrário das marginais, flui. Já não se pode dizer o mesmo da linha vermelha mas não é pior que as marginais também). O metrô é o único meio de transporte no Rio em que há a garantia de que você não tomará uma bala perdida. Por isso ele é tão caro.

Falando de transporte público, os trens atendem muitos lugares no Rio. Se fossem trocados por trens de média velocidade (60km/h) frequentes a coisa melhoraria muito. Outra coisa que melhoraria é uma melhor integração, como há em SP. Um cartão único que fizesse as contas dos preços das integrações. Cada integração custa um valor diferente e precisa de cartões diferentes, você fica maluco. O cartão do metrô não serve pra fazer integração no trem, o que me fez perder 3,80.

Um lugar pelo qual me encantei aqui foi a Biblioteca Nacional. Com um acervo gigantesco e uma sala de estudos excelente, é uma boa para estudar, ler, entre outras atividades intelectuais. Fiquei lá e li um pouco “A Descoberta do Outro” do Gustavo Corção, meu livro favorito. Foi bom relembrá-lo, já que o meu exemplar está perdido em algum canto.

O livro é um romance autobiográfico, escrito de maneira ímpar. Corção conta como a sua indignação perante às injustiças e superficialidades burguesas levou-o a um proto-marxismo (nas palavras dele, ele não gostava tanto do materialismo histórico, o seu lance era o “fígado do burguês”) e daí, com todas as suas experiências, ele pulou para a “descoberta do outro”, aprendeu a amar. Descobriu os detalhes. Nas palavras de Nelson Rodrigues, “Corção é todo amor”, e é fato. Em “A Descoberta do Outro” você descobre o que é, de fato, o amor cristão. Não é algo piegas nem sentimentalista. É algo que mesmo um engenheiro como Corção pode sentir.

Aliás, Corção era carioca. Contemporâneo de tantos outros. Durante muito tempo, a vida intelectual e cultural no Brasil se deu no Rio de Janeiro. Corção e Alceu, Nelson Rodrigues, Jackson de Figueiredo, Herberto Sales, Carlos Drummond de Andrade. E do Rio ainda surgiu Bruno Tolentino. Olavo de Carvalho no Rio morou por muitos anos. E não é por ter sido a capital brasileira. Qual a vida intelectual em Brasília? Zero. E Recife, que nos deu Gilberto Freyre e tantos outros, e nunca foi capital?

No Rio você pode viver uma vida medíocre de baixos prazeres, mas também galgar o que de mais alto se fez no Brasil. Os museus, as bibliotecas, os prédios do império, as peças de teatro, os concertos. Muitas vezes com aquele diletantismo acadêmico que é simulacro de cultura, é fato, mas uma alma atenta pode tirar disso o melhor, assim como um bom coador tira uma delícia de suco de uma laranja muito bagacenta. São Paulo também tem simulacros, mas tem menos cultura verdadeira. Essa que veio dos mestres e ficou impregnada no ar do Rio. Respira-se cultura por aqui, e não sei explicar isso direito. Mas sinto-o desde a primeira vez que pisei nessas paragens. Senti o mesmo em Recife, aliás.

(post incompleto postado com um atraso estupendo!)

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Uma vida bem vivida é mais ou menos como um banho frio. Há um certo incômodo, mas também há um certo deleite. E o frescor ao sair mais que compensa o gelo ao entrar.

Em diversos momentos devemos fazer coisas que a princípio são incômodas. Por exemplo, preciso lavar minhas meias e arrumar meus papéis. É claro que isso é chato e vai me incomodar bastante, mas eu consigo gostar da atividade um pouco (me sinto bem lavando roupa, sério!), mas a chatice de lavar roupas não é nada comparado com poder calçar meias limpas. O incômodo de arrumar meus papéis não é nada comparado com poder encontrar aquilo que quero facilmente.

É claro que, como falei no último post, vai sempre haver a luta do desejo contra a vontade, a vontade de ter meias limpas no armário, contra o desejo de ficar vagabundeando na internet. A vontade de ter um corpo saudável contra o desejo de comer todas as iguarias que comprei no último fim-de-semana. A vontade de arrumar os meus papéis contra o desejo de jogar World of Goo (dica pro seu carnaval, Leo!) e Frets on Fire.

Mas, retomando o Aristóteles, a felicidade é viver segundo a reta razão. E a razão (diria mais, diria que é a Sabedoria) é a regente da nossa vontade. Sou mais feliz lavando meias que quebrando meu recorde de Play With Me, por mais que isso pareça contra-intuitivo. Mas a intuição nem sempre está certa, como prova o problema da Porta dos Desesperados.

Quão agradável é, como o frescor de um banho frio, olhar pra trás e falar: cumpri o que minha razão me ordenou! Ou ainda, cumpri meu dever outrora, agora posso fazer outras coisas.

Agora vem a má notícia. Esse tipo de luta nunca cessará. Nunca viveremos “pacificamente”. No último True Outspeak, o Olavo de Carvalho faz uma explanação excelente sobre isso. “Não vim trazer a paz, mas a espada”, aquela coisa toda. E, por isso, devemos renovar todo dia nosso espírito, para que enfrente mais um dia de batalha. É difícil.

Se fosse fácil, eu não perderia tempo escrevendo! Escrevo mais para me convencer do que para convencer outras pessoas!

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Eu sou fã do Latino. Não, eu não gosto de nenhuma música dele, mas sou fã do que ele representa. Ele tem uma formação musical aceitável, e pensa até acima da média do que já vi de declarações. Mas faz músicas idiotas, idiotíssimas! E ele mesmo sabe disso, faz por opção, e faz um baita sucesso! Acho que isso só prova a decadência cultural do Brasil. Se é isso que o Latino queria ou não, eu não sei.

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Continuando o debate sobre concorrência nos transportes, recomendo um post excelente do meu amigo T, no blogue “Dizem que eu viajo“.

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Ontem fui para Ribeirão Pires, a convite de meu amigo Allan. Em breve, postarei as fotos no flickr.

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Uma das coisas que mais me irrita é o patronímico “estadunidense”. Por que não americano? Eu respondo: por recalque. O nome daquele país é América. Estados Unidos é a organização de lá, assim como o Brasil já se chamou Estados Unidos do Brazil, e hoje se chama República Federativa do Brasil, serei eu um “republicofederativense”?

Ah! Mas confunde com o continente. E os torcedores do América, por acaso são “footballclubenses”? Não! São chamados, igualmente, de americanos.

“Porque a torcida americana é toda assim, a começar por mim, a cor do pavilhão é a cor do nosso coração!”.

Ora, se um time de segunda divisão (com um passado glorioso) tem seus torcedores chamados de americanos, por que não igualmente um país cujo nome é América?

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Como eu odeio a Expresso Brasileiro, a Rápido Brasil e a Ultra! Essas três empresas formam um cartel na linha São Paulo – Santos/São Vicente. Você não consegue escolher entre elas. É bem diferente, por exemplo, da cooperação Cristália – Cometa na linha São Paulo – Campinas. As passagens, nesse último caso, são vendidas num mesmo guichê, pelo mesmo preço, mas você escolhe se prefere Cristália ou Cometa. Cada uma tem seus horários regulares, suas vantagens e desvantagens. As três empresas que eu odeio revezam quem oferece o serviço, ou seja, nunca há escolha. Para completar a picaretagem, eles atrasam absurdamente o ônibus até que ele lote, pra aumentar os lucros. Dane-se se os passageiros têm horário a cumprir.

Não bastasse isso, quando surgiu uma concorrência verdadeira (a Expresso Luxo, que oferece um serviço pontual e executivo pelo mesmo preço), eles entraram na justiça para cassar a concessão do trecho a ela, tamanho foi o seu medo. Felizmente, a Expresso Luxo ganhou o recurso e voltou a operar, mas com poucos horários. No último domingo, eu, com pressa, peguei o Expresso Brasileiro de 14h59min, porque não podia perder os 10 minutos para pegar o Expresso Luxo de 15h10min. Advinhem que hora o Expresso Brasileiro saiu? 15h10min. Que raiva! Bando de picaretas.

Mas reparem uma coisa: o medo que esse cartel tem da concorrente pequena. Monopólio é uma coisa cruel. Uma empresa detém o monopólio das linhas do aeroporto de Guarulhos para São Paulo. O preço que ela cobra é praticamente o mesmo que o cobrado pelas empresas que levam a Santos e a Campinas. Por quê? Porque tem um monopólio. Dada a tradição estatal do Brasil, nós sempre fomos acostumados com monopólio, e queremos “reclamar pro governo” (como acontecia na Alemanha Oriental, se alguma coisa fosse ruim, você escrevia uma cartinha pro governo, e torcia pra alguém ler). Mas, graças a Deus, um setor tem transformado isso, e mudado a mentalidade do brasileiro: a telefonia.

Cada vez mais o brasileiro se acostuma com uma coisa chamada “concorrência”, fundamental para o capitalismo, graças às empresas de telefonia, mormente telefonia móvel. No mesmo ônibus em que passei raiva, vi um homem ligando para a Claro para reclamar que não pagava mais apenas 6 centavos pela ligação, seus créditos tinham se esvaído, e deixou claro: “Na Vivo eles me dão bônus de 10x o valor da recarga”. Isso é um progresso enorme no Brasil, a noção da concorrência trabalhando a seu favor! A concorrência acirradíssima entre as empresas de telefonia móvel é um exemplo para a nação. Todo mundo tem celular hoje no Brasil, tido na época de monopólio estatal como “coisa de milionário”, e o número de celulares sobrepujou o de telefones fixos. E há idiotas que criticam a privatização… É claro que a primeira empresa a entrar vai combater, com todas as forças, a existência das chamadas “banda B” e “banda C”. Mas o mercado tem que ser o mais amplo possível!

E volto aos transportes rodoviários. Uma estrada não é algo tão crítico como o espaço aéreo. Por que não deixar quem quiser operar um trajeto? Só pode haver ganhos advindos disso. Tenho certeza que pelo menos umas 5 empresas ofereceriam São Paulo – Campinas. Umas duas a mais entrariam no trecho São Paulo – Santos, os que mais uso. Os preços cairiam, a qualidade melhoraria, cada empresa ofereceria um diferencial. Antes de ser comprada pela 1001, a Viação Cometa garantia a pontualidade e a agilidade, por benevolência apenas. Depois da aquisição, a Cometa foi do vinho pro fel. Os ônibus não têm a agilidade de outrora (dos 2h10min que levava em 2002, a viagem Santos – Campinas hoje demora 3h30min), apesar de serem “novos”, e a pontualidade caiu bastante. Na maioria de suas linhas, eles são monopolistas e/ou têm um número de horários muito superior aos concorrentes.

E por que pedágio é tão caro? Simples, porque estradas que vão para “quase” o mesmo lugar são administradas pela mesma concessionária. Anhangüera e Bandeirantes deveriam ser concessionadas para empresas diferentes, o mesmo vale para Dutra e Trabalhadores, Anchieta e Imigrantes, etc. Só que em todos os casos, é a mesma concessionária, os mesmos valores de pedágio, a qualidade da administração privada, mas com o preço do monopólio.

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Mais um comentário capitalista, mas aeroviário: a entrada da Azul no mercado foi uma coisa fantástica. Os preços dos voos em Campinas para os destinos para que ela opera caíram bastante. Mas outros voos também, já que o aeroporto de Viracopos começou a ficar mais movimentado, e a empresa aérea deve operar em breve para mais e mais destinos (como Rio e Floripa). A Azul atacou em rotas inexistentes (como voos diretos para Vitória e Florianópolis partindo de Campinas), rotas existentes, mas overpriced pelas outras companhias, de forma a competir não apenas com o mercado de Campinas (pequeno), como com o de São Paulo (gigante). Dependendo de onde você está em São Paulo, você chega em Viracopos antes de Guarulhos. Se a Azul crescer, e novas empresas a seguirem, todos ganham. Ainda vou falar mais disso.

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Mudei de assunto em relação aos últimos posts, não? Só quis dar uma descansada dos assuntos de moral e virtudes. Semana que vem, quem sabe volto à carga, menos irritado com as empresas detentoras de monopólio e exploradoras, não do negócio, mas do cliente. Mas quero falar mais sobre a educação da vontade e já estou com um artigo engatilhado sobre crendices, ceticismo cego, e um áureo equilíbrio, quem sabe sai segunda que vem. (E veja, quarta segunda-feira seguida com artigo, espero manter o ritmo!)

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Malditos Românticos!

Amor é treino.

Uma nota se faz necessária. Amor não é um sentimento. Nunca foi. E quem acha que é, é idiota. Amor não é um fogo que arde sem se ver. Não é ferida que dói e não se sente. É no máximo um contentamento descontente, mas jamais desatina sem doer.

O processo para se saber amar é o mesmo daquele para aprender piano ou uma língua estrangeira. Treino. Pouco romântico, você diz? Danem-se os românticos! Muito intelectual? Jamais. Ninguém nega que há sentimento no “tocar piano”, mas só os emos e os ébrios acreditam que o sentimento faz prescindir da técnica (ok, e o Miró também, será ele emo ou alcólatra?).

Então, você começa com a “primeira valsinha”, ou seja, amar as pessoas mais próximas, quiçá a si mesmo. Raros são os que tocam as variações de Liszt sobre um tema de Paganini, assim como raros são os que conseguem amar seus malfeitores. Mas antes de apresentar a “primeira valsinha” em público, você tem muito treino (Czerny, Hanon e Cramer, por exemplo) pela frente.

E aí surge o problema: o treino é artificial, e é carregado pelo resto da vida. Todo pianista que se preze, toca o Czerny e o Hanon diariamente, até o fim da sua carreira (tenho certeza que você já escutou isto). Todo ser humano que se preze tem que praticar — ainda que artificialmente — o amor diariamente, até o último de seus dias. É estranho falar isso, já até causei polêmica num post semelhante, mas reitero: treina-se o amor, com práticas aparentemente artificiais. Por exemplo, dar esmolas. Você não sente nada por aquele mendigo, até quer que ele suma da sua frente, mas dá o um real pra ele comprar uma pinga.

Com o treino, você vai tornando amar uma coisa natural na sua vida, praticamente automática, como dirigir ou andar de bicicleta. Você não precisa mais racionalizar o ato, isso se torna até difícil. Esse é o segredo daqueles grandes que conhecemos, admiramos, e não sabemos de onde tiram tanta disposição.

Não sei onde li recentemente, que amar é atentar, onde está o seu amor, aí está a sua atenção. Você só presta atenção ao que ama, e só ama aquilo a que presta atenção. Porque o amor é entrega, e a atenção é dedicação do tempo, e é do tempo que é feita a vida, de nada mais.

Destarte, você não está amando nada, caia fora daqui agora, a não ser que você esteja a ler meu blogue por piedade para eu ter mais de dois leitores (o robô do Google e o gerador de feed do wordpress).

Reitero, amor é treino, como a boa educação e a etiqueta, como andar de patins. Errar faz parte, você pode destruir seu joelho, acontece, mas se ousar “na medida”, os erros serão menores e menos danosos. O treino deve se tornar atividade diária, cotidiana, lembrada.

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Perguntam-me o que achei da Azul. Gostei. O atendimento é bom, embora o pessoal do check-in seja um pouco amador. O avião é bem confortável, com espaço entre as poltronas, e ela tem o serviço de bordo mais inteligente que eu vi, estilo “bar”: a aeromoça pergunta o que você quer beber, e depois traz, evitando passar com carrinho, impedindo a passagem, de um lado para outro. As bebidas são individuais: latinhas, caixinhas, copinhos. Nada de sanduíches: wafers e batatinhas. Os bancos são de couro, há um espaço maior que a média entre as poltronas, e o avião é bem estável (não tanto quanto os de maior porte, mas muito estável). Mas o que eu mais gostei foram dos detalhes, que fazem toda a diferença.

As aeronaves têm nomes, todos com “azul”, desde coisas ridículas como “O Rio de Janeiro continua Azul” até nomes bem interessantes como “A Liberdade é Azul”. As aeromoças usam um quepe gracioso (mas bem baratinho), só fora do avião, e o uniforme é clássico. A solicitude do pessoal é ímpar.

Se há desvantagens em relação a outras companhias? Várias: há poucas rotas ainda, o serviço é mais voltado ao tipo de viagens “de turismo”, como a Gol, ao contrário da TAM que é mais voltada ao tipo de viagens “de negócio”. Isso faz sim muita diferença quando você viaja a trabalho. Eles inventaram uma de falar “com tom natural”, assim: “Oi, tudo bom? Você já deve saber que a sua poltrona tem que estar na vertical, não é? Não esqueça também de abrir as persianas e botar o cinto, hein!” que é ridículo demais (ok, eu dei uma exagerada). Mas o saldo final é bem positivo, também por causa dos preços excelentes.

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Hoje começo uma nova empreitada aqui no blogue, qual seja, ter um post novo toda segunda-feira. Façam os seus bolões de quantas semanas isso dura. A idéia é aumentar o tráfego e me disciplinar, como um exercício (lembra da “parte principal” deste post?).

Peço desculpas pelo post incompleto mais cedo, terminei o post semana passsada e mandei publicar hoje, como disse, quero ter posts novos toda segunda-feira. Acontece que a conexão internet era por demais ruim, e o post não foi salvo desde a última edição. Como eu perdi tudo que havia escrito, e estava no Rio depois disso, acabei esquecendo de terminar o post. Espero que não se repita!

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Sábado passado foi dia de Santo Expedito. Um problema que tive durante algum tempo na Igreja foi a devoção dos santos. Explico. Aquela coisa de beatas pegarem um santinho e fazer uma “reza milagrosa” não me cheirava bem. Eu não gostava daquilo, de jeito algum. E era só pedir, e depois ir até Aparecida acender uma vela. Não gostava, repito. E, se quer saber, ainda não gosto.

Uma das coisas emblemáticas disso é o “apelido” dos santos: Santo Expedito é o “santo das causas urgentes”. Então, se a sua filha já está ficando velha e ainda não casou, reza pra Santo Expedito! Se a prova é amanhã e você não estudou, reza pra Santo Expedito. E tem o santo casamenteiro, o santo das causas impossíveis, o santo disso, o santo daquilo, e o daquilo outro também. É estranho.

O Padre Euclides, de quem só não puxei mais o saco aqui no blogue que o Julio Lemos, deu uma revolucionada na minha cabeça soberba e botou a devoção aos santos nos trilhos. Os santos são importantes pelo que fizeram: pela marca, pelo sulco que deixaram no mundo; para o Pe. Euclides são importantes pelos seus defeitos e fraquezas.

Hein???

Ah, meu amigo! Vamos por partes. Todos nós temos fraquezas, tentações, vicissitudes. Os santos também tiveram. E a maioria teve muitas quedas, antes e depois da conversão. Estudando como eles lidaram com isso (e nem precisa ser “católico”, basta admirar as virtudes e querer imitá-las), podemos agir semelhantemente.

Não vou citar santo por santo. Há um livro excelente chamado “The saints according to their handwriting” (se você lê italiano, leia o original: il i santi dalla loro scrittura, ou algo assim), do Padre Girolamo Moretti. Já falei dele aqui, é um livro que faz análise (cega) grafológica de escritos de santos, e mostra suas qualidades, defeitos e tendências. Todos os santos foram humanos como nós. É claro que não temos as chagas de Cristo nem delas sai perfume, como São (Padre) Pio de Pietrelcina, mas nem por isso as tentações não o atacavam.

O caso de Santo Expedito, contudo, merece ser citado. Ele era um cara pagão e devasso, como geralmente são os pagãos. Apresentado ao Cristianismo, sentiu-se chamado à conversão. Ele podia deixar pra amanhã, foi o que um corvo falou pra ele: chegou perto dele e começou: “cras”, “cras”, que em latim (ele era soldado romano, latim era sua língua mãe) quer dizer “amanhã”. Ele olhou pro corvo e berrou: “HODIE” (não preciso traduzir, né?).

Por isso ele é o “santo das causas urgentes”. Não só: por se converter, foi chicoteado até as vísceras e depois decapitado. Isso que é martírio. Eu acho de uma mediocridade sem tamanho chegar pra um cara desse e pedir pra ir bem na prova. Mas acho justo e necessário pedir-lhe, por exemplo, inspiração e intercessão pra não deixar pra amanhã as coisas. Foi isso que ele fez, e é nisso que ele pode me inspirar. Posso recorrer a ele para coisas mais medíocres, como recorro a São Bento quando vou entrar em lugares potencialmente perigosos (beco, caminhos escuros, etc.).

Essas coisas me fizeram recobrar a “devoção aos Santos”, mas de uma maneira que considero mais de acordo com “o que Deus quer de nós”. Assim fui compondo o meu “devocionário”. A São José peço dedicação ao trabalho e atenção; a São Bento, que eu cumpra o “ora et labora”; à Virgem Maria, pureza, humildade, obediência; a Santa Bakhita, que eu aceite os sofrimentos que a vida me impõe, a Santo Expedito, que eu vença as tendências de procrastinação e grite “HODIE”. Isso que eles ensinaram com sua vida, com seus momentos de fraqueza e de fortaleza. E é isso o que eu peço em oração para eles. Já disse, é claro que tenho intenções medíocres muitas vezes, mas isso era pra ser exceção, e não regra.

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Um comentário ortogonal: estou em Brasília, e vim para cá de Congonhas na quarta-feira. Entre outros políticos, viajei com Michel Temer, o único cara no mundo que consegue ser de extremo centro.

Por falar em política e em PMDB, o Kassab conseguiu apoio do Ércia, vocês viram (meu tio o chama assim, porque “o resto do nome ele já perdeu faz tempo”)? O Ércia (ou Quércia, se preferirem) é o cara que manda, hoje, no MR-8, que por sua vez publica o fantástico “Hora do Povo“. O jornal soltou um caderno em homenagem ao Stálin ano passado, e quando começou a guerra do Iraque, soltou a seguinte manchete: “Bush invade Iraque contra governo democrático de Saddam”. Maravilha da humanidade.

Essa aliança me deixou muito feliz porque eu poderei ver o HP (e o MR8 ) falando bem do Kassab e do DEM. Essa eu quero ver mesmo, e vou dar muita risada! Mas ainda não foi dessa vez, eles soltaram uma manchete criticando (MUITO levemente, diga-se de passagem) o apoio ao Kassab, preferindo um apoio ao PT. Mas vejam que pérola de jornalismo encontramos no artigo:

“Quércia sempre foi o líder da resistência peemedebista à submissão aos tucanos. Durante os oito anos do desastroso governo de Fernando Henrique, o ex-governador manteve-se na oposição ao neoliberalismo e ao entreguismo, coerente com sua trajetória de identificação com o povo e com as aspirações pelo desenvolvimento nacional (…) Fernando Henrique e Serra saíram do PMDB para fundar o PSDB acusando Quércia, exatamente em virtude de suas qualidades (…): uma política econômica de acordo com os interesses nacionais, a vontade de ver o Brasil como uma grande nação, a promoção do bem-estar do povo e, não menos importante, a competência administrativa”.

Stupendo!

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No Natal eu vou ver o bom velhinho, e por isso comecei a estudar italiano. Se alguém quiser me dar uma força, bater papo em italiano daqui a um mês mais ou menos, quando vou ter uma base para uma conversa de crianças, ou algo assim, eu agradeço. Estou usando um método autodidata, que apesar do título asqueroso, parece muito bom: “O Novo Italiano Sem Esforço”, da editora Assimil (parece que é publicado no Brasil pela E.P.U.). Há outras línguas, todas “O Novo XYZ Sem Esforço”. Já sei, nas três primeiras lições (que tomam apenas dois períodos de 20 minutos a meia hora cada, uma por dia), conjugar o verbo ser/estar e haver/ter, algumas palavras básicas, os elementos constitutivos da pronúncia e algumas palavrinhas chave. (Ademais, o método é tão politicamente incorreto que na lição dois você já aprende a pedir cigarro, isqueiro e assento de fumantes no trem).

Scusi, lei ha una sigaretta?

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ou: πανκαταπυγια – δευτερος τομος

Neste último fim de semana tive um dos episódios mais dolorosos da minha vida, e dentre eles, o mais desesperador. Em 2001, tive apendicite, que por horas não me leva a complicações possivelmente letais. Em 2004, arranquei um ciso, e a picada da anestesia foi a dor mais intensa que já senti. Em 2006 tive cálculo renal, uma dor pior que a da apendicite, mas expelido rapidamente, pude obter o alívio com analgésicos e relaxantes. Na última semana, provavelmente causada por mudanças bruscas de temperatura, adquiri uma nevralgia do nervo facial esquerdo.

A nevralgia é uma inflamação dolorosa de um nervo. O nervo facial é vizinho do nervo trigêmeo e a nevralgia do trigêmeo, ou trigeminalgia, é conhecida como “doença do suicídio”, pois leva as pessoas a cometerem suicídio desesperadas pela dor. A minha nevralgia, graças a Deus, foi mais leve. O nervo facial dói menos, mas é igualmente desesperador. Não vou contar todo o meu itinerário hospitalar, mas digo que foi uma barra. Pouco antes de ser diagnosticado definitivamente, tudo que eu queria era que me dopassem, estava quase a implorar por isso, enquanto não conseguisse uma solução definitiva.

Contam da trigeminalgia que muitos são levados a arrancar dentes (às vezes metade da arcada), crendo que é uma dor de dentes. Passei por isso, por um bom tempo pensei se tratar de uma dor de dentes, e o desespero era tanto que eu aceitaria que arrancassem alguns deles, passando pelo doloroso episódio anestésico que já citei, para me livrar dela. Teria uma dor mais intensa ainda, mas breve, e que me curaria.

Há dores que curam. A picada de uma anestesia, a extração de dentes. Na vida, há outras dores mais sutis, que também são extrações. Ao falar de Amor, São Josemaria Escrivá relata de um discípulo que o escreveu dizendo que tinha “dor de dentes de amor”. O Santo disse que compreendia, e que gostaria que o discípulo o deixasse “fazer umas extrações”.

A dor de não amar verdadeiramente não é pungente como uma nevralgia ou a de um dente torto. E por isso não fazemos as devidas extrações, extrações necessárias para o reto caminho. Amar não é uma besteira de novela, não é um sentimento, acho que já falei demais disso por aqui, e o Julio falou melhor do que eu.

Só espero que ninguém (eu incluso) tenha que passar pelo desespero de uma “nevralgia da alma” para resolver o problema.

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Há muito o que falar de minhas recentes viagens, mas que fique claro: se há cidades com cultura no Brasil, essas são o Rio de Janeiro e Recife, além da óbvia São Paulo.

Aliás, o Rio de Janeiro é de uma elegância ímpar, parece que tudo lá cai bem. Os prédios geminados de Copacabana, ou as edificações antigas (e elegantérrimas) de Ipanema e da Urca, ou as Universidades da Praia Vermelha, tudo lá parece adequado, caindo bem, de acordo com a época construída. O prédio da UFRJ é um verdadeiro prédio universitário, não as caixas de concreto que vemos em São Paulo. E tem uma capela de invejar a mais antiga das PUCs.

Já Recife é mais high-tech. Em Recife há gruas, prédios e pobreza. É a Dubai brasileira, e é incrível como se percebe a diferença da colonização holandesa para a portuguesa sem saber descrever a diferença. É sutil, mas perceptível.

Agora Brasília é apenas uma coisa: moderna. Sendo construída na década de 60, tudo lá tem a cara da década de 70. Além disso, você tem a sensação de que tudo lá é estatal, é desesperador.

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