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Posts Tagged ‘Capitalismo’

Uma das coisas que mais me irrita é o patronímico “estadunidense”. Por que não americano? Eu respondo: por recalque. O nome daquele país é América. Estados Unidos é a organização de lá, assim como o Brasil já se chamou Estados Unidos do Brazil, e hoje se chama República Federativa do Brasil, serei eu um “republicofederativense”?

Ah! Mas confunde com o continente. E os torcedores do América, por acaso são “footballclubenses”? Não! São chamados, igualmente, de americanos.

“Porque a torcida americana é toda assim, a começar por mim, a cor do pavilhão é a cor do nosso coração!”.

Ora, se um time de segunda divisão (com um passado glorioso) tem seus torcedores chamados de americanos, por que não igualmente um país cujo nome é América?

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Como eu odeio a Expresso Brasileiro, a Rápido Brasil e a Ultra! Essas três empresas formam um cartel na linha São Paulo – Santos/São Vicente. Você não consegue escolher entre elas. É bem diferente, por exemplo, da cooperação Cristália – Cometa na linha São Paulo – Campinas. As passagens, nesse último caso, são vendidas num mesmo guichê, pelo mesmo preço, mas você escolhe se prefere Cristália ou Cometa. Cada uma tem seus horários regulares, suas vantagens e desvantagens. As três empresas que eu odeio revezam quem oferece o serviço, ou seja, nunca há escolha. Para completar a picaretagem, eles atrasam absurdamente o ônibus até que ele lote, pra aumentar os lucros. Dane-se se os passageiros têm horário a cumprir.

Não bastasse isso, quando surgiu uma concorrência verdadeira (a Expresso Luxo, que oferece um serviço pontual e executivo pelo mesmo preço), eles entraram na justiça para cassar a concessão do trecho a ela, tamanho foi o seu medo. Felizmente, a Expresso Luxo ganhou o recurso e voltou a operar, mas com poucos horários. No último domingo, eu, com pressa, peguei o Expresso Brasileiro de 14h59min, porque não podia perder os 10 minutos para pegar o Expresso Luxo de 15h10min. Advinhem que hora o Expresso Brasileiro saiu? 15h10min. Que raiva! Bando de picaretas.

Mas reparem uma coisa: o medo que esse cartel tem da concorrente pequena. Monopólio é uma coisa cruel. Uma empresa detém o monopólio das linhas do aeroporto de Guarulhos para São Paulo. O preço que ela cobra é praticamente o mesmo que o cobrado pelas empresas que levam a Santos e a Campinas. Por quê? Porque tem um monopólio. Dada a tradição estatal do Brasil, nós sempre fomos acostumados com monopólio, e queremos “reclamar pro governo” (como acontecia na Alemanha Oriental, se alguma coisa fosse ruim, você escrevia uma cartinha pro governo, e torcia pra alguém ler). Mas, graças a Deus, um setor tem transformado isso, e mudado a mentalidade do brasileiro: a telefonia.

Cada vez mais o brasileiro se acostuma com uma coisa chamada “concorrência”, fundamental para o capitalismo, graças às empresas de telefonia, mormente telefonia móvel. No mesmo ônibus em que passei raiva, vi um homem ligando para a Claro para reclamar que não pagava mais apenas 6 centavos pela ligação, seus créditos tinham se esvaído, e deixou claro: “Na Vivo eles me dão bônus de 10x o valor da recarga”. Isso é um progresso enorme no Brasil, a noção da concorrência trabalhando a seu favor! A concorrência acirradíssima entre as empresas de telefonia móvel é um exemplo para a nação. Todo mundo tem celular hoje no Brasil, tido na época de monopólio estatal como “coisa de milionário”, e o número de celulares sobrepujou o de telefones fixos. E há idiotas que criticam a privatização… É claro que a primeira empresa a entrar vai combater, com todas as forças, a existência das chamadas “banda B” e “banda C”. Mas o mercado tem que ser o mais amplo possível!

E volto aos transportes rodoviários. Uma estrada não é algo tão crítico como o espaço aéreo. Por que não deixar quem quiser operar um trajeto? Só pode haver ganhos advindos disso. Tenho certeza que pelo menos umas 5 empresas ofereceriam São Paulo – Campinas. Umas duas a mais entrariam no trecho São Paulo – Santos, os que mais uso. Os preços cairiam, a qualidade melhoraria, cada empresa ofereceria um diferencial. Antes de ser comprada pela 1001, a Viação Cometa garantia a pontualidade e a agilidade, por benevolência apenas. Depois da aquisição, a Cometa foi do vinho pro fel. Os ônibus não têm a agilidade de outrora (dos 2h10min que levava em 2002, a viagem Santos – Campinas hoje demora 3h30min), apesar de serem “novos”, e a pontualidade caiu bastante. Na maioria de suas linhas, eles são monopolistas e/ou têm um número de horários muito superior aos concorrentes.

E por que pedágio é tão caro? Simples, porque estradas que vão para “quase” o mesmo lugar são administradas pela mesma concessionária. Anhangüera e Bandeirantes deveriam ser concessionadas para empresas diferentes, o mesmo vale para Dutra e Trabalhadores, Anchieta e Imigrantes, etc. Só que em todos os casos, é a mesma concessionária, os mesmos valores de pedágio, a qualidade da administração privada, mas com o preço do monopólio.

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Mais um comentário capitalista, mas aeroviário: a entrada da Azul no mercado foi uma coisa fantástica. Os preços dos voos em Campinas para os destinos para que ela opera caíram bastante. Mas outros voos também, já que o aeroporto de Viracopos começou a ficar mais movimentado, e a empresa aérea deve operar em breve para mais e mais destinos (como Rio e Floripa). A Azul atacou em rotas inexistentes (como voos diretos para Vitória e Florianópolis partindo de Campinas), rotas existentes, mas overpriced pelas outras companhias, de forma a competir não apenas com o mercado de Campinas (pequeno), como com o de São Paulo (gigante). Dependendo de onde você está em São Paulo, você chega em Viracopos antes de Guarulhos. Se a Azul crescer, e novas empresas a seguirem, todos ganham. Ainda vou falar mais disso.

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Mudei de assunto em relação aos últimos posts, não? Só quis dar uma descansada dos assuntos de moral e virtudes. Semana que vem, quem sabe volto à carga, menos irritado com as empresas detentoras de monopólio e exploradoras, não do negócio, mas do cliente. Mas quero falar mais sobre a educação da vontade e já estou com um artigo engatilhado sobre crendices, ceticismo cego, e um áureo equilíbrio, quem sabe sai segunda que vem. (E veja, quarta segunda-feira seguida com artigo, espero manter o ritmo!)

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Um grupo, “Stop Islamization of Europe” (traduzido por mim livremente para “Detenha a Islamização da Europa), promoveu uma passeata (você ouviu falar?) contra a islamização européia e a favor da democracia e da liberdade de imprensa. A manifestação foi proibida pelo prefeito “pela integridade dos manifestantes”. Eles a fizeram da mesma forma e foram presos. A maior prova de que a Europa está islamizada, já que manifestações pró-Islam e anti-E.E.U.U acontecem sem maiores imprevistos. Quando da proibição, eles publicaram um manifesto que faço questão de traduzir.

Uma manifestação européia pacífica que quer proteger nossos preciosos valores europeus, como democracia e liberdade de expressão, foi banida por uma pessoa! Um prefeito na capital da União Européia: Bruxelas. O ano é 2007.

Esta manifestação poderia chatear a comunidade muçulmana na cidade, então o prefeito disse que não poderia garantir a segurança pública. E estava, portanto, banida.

Deveríamos obedecer a decisão do prefeito? Se formos assim mesmo, seremos tachados de criminosos pelos políticos e pela mídia?

Vemo-nos como bons e pacíficos cidadãos, que não têm problema em obedecer as regras em nossas sociedades democráticas. Sim queremos obedecer as regras, queremos obedecer nossas regras de liberdade de expressão, nossas regras de direito à congregação pública, essas são nossas leis democráticas (Especialmente. artigos 11 e 12). E são nossos direitos também, que neste momento estão sendo suprimidos.

De fato, ao contrário, seríamos criminosos se recuássemos agora e obedecêssemos a decisão do prefeito, pois daí obedeceríamos as “leis da violência”. Este é o motivo pelo qual a manifestação foi proibida: por causa de ameaças de violência! Por que deveríamos obedecer uma proibição baseada em ameaças de violência por contra-manifestantes?

Pensamos em prazos maiores. Se aceitarmos essa proibição, faremos o objetivo de parar a islamização mais difícil ainda no futuro, então nós de certa forma aceitaremos que muçulmanos têm o direito de ameaçar com violência e, desta forma, o poder de evitar que manifestações pacíficas aconteçam no futuro.

Esta não é a hora de ser “legal”. Novamente pensamos em prazos maiores. Escolher ser legal e cidadãos obedientes neste assunto específico pode salvar nossa pele, mas ao mesmo tempo lançamos ao futuro da próxima geração os problemas. Como se lançássemos lixo poluente no mar ou no solo, para a próxima geração tratar dele, em vez de o tratarmos nós outros aqui e agora. Em respeito a nossos netos.

De fato, ajudaremos a islamização ainda mais se obedeceremos agora ao prefeito. Os muçulmanos que ameaçam com violência verão isso como uma vitória. Eles saberão que os europeus são facilmente assustados, e poderão usar essa estratégia no futuro.

Ao invés, obedecendo nosssos direitos democráticos, nós ajudamos as pessoas que têm que lidar com a islamização em seu cotidiano. Eles poderão ver que há algumas pessoas corretas que estão dispostas a se levantar e lutar sua batalha, uma luta que eles podem não enfrentar sozinhas por medo de perder seu emprego, medo da violência, medo da marginalização, etc: Nós estamos a dar esperança às pessoas pelo futuro, e não vamos e não podemos recuar.

Não obedeceremos as leis da violência, obedeceremos as leis da democracia e da liberdade de expressão!

Esteja na história! Esteja lá!!

Poderia haver mais gente assim no Brasil…

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Das razões deste escrito

Estive hoje, data da escrita deste documento, no Conselho de Representantes de Unidades (CRU), espécie de “senado” do movimento estudantil da Unicamp, sobrepujado em autoridade somente pela assembléia geral e pelos congressos anuais, e que congrega representantes eleitos de forma direta e representantes escolhidos pelos Centros Acadêmicos.

A pauta consistia da discussão a respeito dos “decretos do Serra” (São conhecidos dessa forma os decretos de 51.460 de 01/01/2007, 51.461 de 01/01/2007, 51.471, de 02/01/2007 e 51.636, de 09/03/2007 e 51.660, de 14/03/2007), cuja síntese (enviesada) pode ser lida em http://www.adunicamp.org.br/S%EDntese%20Decretos%20Serra.pdf . É consenso no movimento estudantil que esses decretos precarizam a Universidade Pública, tiram-lhe a autonomia, e fazem parte de um projeto privatista das Universidades (obviamente tramado pela burguesia).

Ao comparecer ao CRU — com dois amigos de quem discordo politicamente, mas dou testemunho de sua inteligência e honestidade — o que ouvi foi uma repetição, com palavras distintas, desses pontos. Às vezes uma pessoa que não estava sob os efeitos da Cannabis falava com uma dicção um pouco melhor, mas o conteúdo não mudava. Fiz uma fala, de alguns segundos, que reproduzo da melhor forma que lembro: “O debate aqui não passou da medula. Ninguém pensou nos pontos e só repete discursos prontos. As falas chegam à medula, e vem a reação imediata. Ninguém pensou no que é Universidade, no que a sociedade tem a ver com a Universidade, qual é o sentido do Estado, o que o Estado tem a ver com a Universidade. Ninguém pensou a respeito da dicotomia colocada por Bourdieu de sociedade e mercado. Retiro-me”. Alguns, ironicamente, pediram para eu fazer uma fala maior para “iluminá-los”. Disse que escreveria um texto. Embora ache que ninguém acreditou nisso, cá está o texto. Vou explicar a minha fala e tratar de alguns outras coisas que vejo no movimento estudantil e que me incomodam, com o intuito de ajudá-los a trilhar o caminho da honestidade intelectual.

Antes de tudo, um pequeno comentário

Um pouco antes do reboliço citado, chamei meus dois amigos a saírem da sala do DCE para fazermos um “debate qualificado” lá fora. Para quem não sabe, “debate qualificado” é como os comunistas se referem a qualquer debate em que eles consigam moldar a linguagem e ser a opinião hegemônica, já que assim ele está livre das amarras da “alienação”. Poderia fazer uma seção inteira com o glossário de termos comuno-socialistas, tais como “bandeiras históricas”, “unidade do movimento”, “educação superadora”, e os já citados “alienação” e “debate qualificado”. Só o último é necessário, e mesmo assim nem é tanto. Retomo a seguir.

No nosso debate qualificado, entre outras coisas, citei que achava um absurdo a burrice deles de não fazer “debates” com as duas (ou mais) opiniões a respeito do assunto, e sim uma voz única, já que mesmo que o intuito deles fosse doutrinar, eles só poderiam fortalecer as opiniões a seu favor expondo a opinião contrária. Nesse momento chegou um dos diretores do DCE, por quem tenho um especial apreço, e falei: “Meu comunista favorito, você não acha que só dá para formar uma opinião se forem expostos os dois lados?”, no que ele concordou inteiramente, e ainda reiterou citando o Princípio de Identidade. Em seguida perguntei: “Por que, então, não se fez nenhum debate com alguém favorável aos ‘decretos do Serra’?”, no que não obtive resposta.

Entre as hipóteses citadas pelos meus amigos para esse comportamento aparentemente desprovido de inteligência, lembro-me das seguintes: “vai que alguém muda de idéia” e “quantos desses estão realmente interessados em formar uma opinião sólida? Dos 35 que lá estão, acho que 33 não estão”.

Dos pontos que elenquei

Discursos prontos

Não é surpresa para ninguém (e é muito triste que não seja) que os debates estudantis (e muitas vezes os docentes) acerca de questões políticas só repetem alguns discursos prontos. Esses discursos são encontrados nas “reuniões de formação” dos partidos ou grupos políticos e em artigos de jornal de pensadores sociais tidos em boa conta pelos militantes estudantis.

Qualquer coisa que fuja disso, choca-os. Eles conhecem os seus discursos, os discursos do grupo político oponente, e brigam quem consegue mais falas, para fazer valer o ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Se alguém chega com algo diferente, inesperado, é clara a sua impotência ante a situação.

Já vi, por exemplo, propostas de algum raro estudante que usa o cérebro que contemplavam os dois lados da contenda. E o que acontecia? A proposta era negada por ambos os grupos, porque eles não sabiam como agir. Não estavam preparados para pensar, desligavam o cérebro e reagiam com a medula. É irônico o suficiente que eles só concordassem em discordar do que ambos concordavam.

Também era notório o embasbacamento temporário a que eu os submetia falando qualquer coisa que fugisse do molde do debate. Eles demoravam algum tempo para dar partida no cérebro, e o cérebro respondia para que eles usassem o trator e discordassem logo, porque ele não queria trabalhar. Afinal, cérebro de comunista não foi feito para ser explorado. Ai de quem tentar extorquir-lhe a mais valia!

O que é Universidade?

Eu não sei o que é Universidade além da minha vivência nesses últimos 6 anos. Também não sei a que ela serve nem a que ela deveria servir, exceto umas apostas que fiz, junto com alguns amigos, em duas teses a Congressos de Estudantes da Unicamp (essas teses estão publicadas no meu blog: Uma noite e meia e Angiosperma Dicotiledônea Cariófila — Abaixo a Média 7).

Já pensei no assunto, contudo, e tenho algumas opiniões temporárias, que eu não valorizo mais do que isso: opiniões. Tendo em conta o que é Universidade, a que ela serve e a que ela deveria servir, eu me posiciono a respeito dos pontos e penso a respeito de projetos possíveis para a Universidade.

Só duas coisas eu tenho certeza a respeito da Universidade, e são as únicas que aqui exporei. Minhas opiniões não interessam. Essas duas coisas são: ela deve servir à ampliação do conhecimento e buscar a verdade. Ampliação do conhecimento de quem? Não sei. Que tipo de conhecimento? Não sei. Verdade a respeito de que temas? Não sei. Tenho cá minhas opiniões, mas repito: não cabe expô-las aqui.

No movimento estudantil, todo mundo (Quando digo “todo mundo”, refiro-me a uma generalização razoável para que, em uma pesquisa estatística, a proporção da amostra que tenha aquela característica seja de 100%. Se você não se encaixa, não se sinta ofendido, mas antes encorajado a lutar para aumentar a proporção da sua característica e não ser desconsiderado), todo mundo diz que a Universidade deve servir à classe trabalhadora, e produzir um conhecimento social que contribua para a “transformação da sociedade” (mais um termo do duplipensar comunista, que significa simplesmente a implantação do socialismo (na verdade ele significa muito mais e mereceria um capítulo à parte. Fica para outra iniciativa.) ). Se eu pedir para alguém explicar o que isso significa, talvez eles não consigam cumprir.

Sociedade e Universidade

Nisso tudo, como a sociedade se relaciona com a Universidade? O que é autonomia para a Universidade, é seguir o caminho do conhecimento? É obedecer os anseios da sociedade? E esses anseios, são refletidos no governo? Onde a autonomia se encaixa nisso tudo? Eu, que evito usar a medula (tenho reações lentas, de fato), não consigo responder nada disso. Sem isso, não dá para discutir autonomia, rumos, e quais são os direitos que o governo têm sobre a Universidade.

Estado?

A conceituação de Estado também se faz necessária. É totalmente diferente um Estado mínimo liberal, um Estado “pequeno” conservador, um Estado de bem-estar social, um Estado grande (por exemplo, populista) e uma ditadura do proletariado nos moldes leninistas. Ao escolhermos o comportamento que desejamos do Estado é que podemos começar a falar de ingerência do governo na Universidade. Em quais dessas formas de Estado a autonomia pode ser defendida? Talvez em quase todos, mas com certeza não na “ditadura do proletariado”, já que o proletariado tem que patrulhar a Universidade (um aparelho ideológico, para Althusser) para evitar o renascimento dos ideais “burgueses”. Então, o que aquele bando de leninistas está falando de autonomia?

Sociedade e Mercado

O sociólogo Pierre Bourdieu dizia que, na sociedade capitalista, o conceito de sociedade se confunde com o conceito de mercado. Isso foi usado (de maneira correta) por um professor contra a “Universidade Nova”. Mas essa análise é mais ou menos “neutra”, no sentido que ela pode ser usada para tanto detratar o capitalismo, como para defendê-lo. E, se ele estiver correto, na sociedade capitalista a Universidade que corresponde aos anseios da sociedade é aquela que corresponde aos anseios do mercado. Não se pode defender a efetivação dos anseios da sociedade na Universidade ao mesmo tempo que se critica o seu caráter “mercadológico”. Isso é muito importante. É uma questão de honestidade, já que os “anseios sociais” que o militante defende nada mais são que os anseios dele.

Para se defender uma Universidade que não siga o mercado, é necessário que: ou se negue (intelectualmente, por favor, não com uma birra!) a tese de Bourdieu, ou não se coloquem os “anseios da sociedade” como guia para a Universidade, e sim um projeto de iluminados ou outra coisa que o valha, por exemplo, a tese conservadora: “a Universidade deve ser autônoma para suas pesquisas, e dane-se o resto”. Não deixa de ser irônico ver socialistas defendendo uma causa conservadora. O que eles não podem é defender isso e os anseios sociais ao mesmo tempo.

Da ignorância e da desonestidade

Há, basicamente, dois tipos de militantes estudantis: os ignorantes e os desonestos. Explico, com um passeio pelo pouco que conheço do marxismo, e de sua evolução intelectual.

Karl Marx postulou de uma maneira quase determinística o fim do capitalismo e o advento do socialismo, preparação para o comunismo. O desenvolvimento capitalista levaria à saturação do sistema e sua queda. O crepúsculo seria acompanhado da revolução socialista, que derrubaria o governo capitalista e imputaria a ditadura do proletariado.

Aos países que não tivessem atingido um desenvolvimento capitalista suficiente, caberiam duas opções para que alcançasse o estágio necessário para a revolução: serem destruídos ou atingir, sozinhos, esse desenvolvimento num prazo maior.

Marx também advertiu que o capitalismo tinha suas defesas, entre elas o “aparelho de Estado”, que mais tarde viria a ser chamado de “aparelho repressivo de Estado”, em contraposição à definição, de Althusser, dos “aparelhos ideológicos de Estado”. O “aparelho de Estado” consistia na polícia a serviço do governo burguês. Com Althusser, as sedes de formação social entraram na turma dos aparelhos, mas como aparelhos ideológicos: a escola, a Igreja, a família que, para ele, incutiam a ideologia burguesa na cabeça dos alienados coitadinhos.

Lênin, ao colocar na prática as idéias marxistas, descobriu duas coisas: a revolução poderia ser feita antes do desenvolvimento capitalista, que seria feito pela própria ditadura do proletariado; o “esquerdismo” não era benéfico ao projeto socialista, porque desviava o foco da revolução, através de demandas imediatistas ao Estado burguês. O próprio Lênin combateu o esquerdismo enquanto promovia o desenvolvimento capitalista na Rússia soviética, até ser sucedido por Stálin.(José Genoíno disse, em entrevista à Folha de São Paulo no dia 07/02/2005, que o governo Lula seguia a linha leninista de prover o desenvolvimento capitalista para criar as condições para a instauração do socialismo)

Contudo, os estudos posteriores de diversos autores do “Marxismo Ocidental”, principalmente Gramsci, Lukács e Horkheimer mostraram que o esquerdismo poderia ser útil ao movimento revolucionário, já que as suas demandas e manifestações serviam para degradar o Estado burguês ou as bases em que estava assentado. Dessa forma, os comunistas deveriam apoiar as causas esquerdistas e todas as causas “anti-ocidentais”, ou ainda “anti-logocêntricas”, pois isso serviria a transformar a opinião pública. Usando o Althusser, a idéia deles era tomar os aparelhos ideológicos de Estado para si, e usá-los no molde da mentalidade da população.

Isso é o básico do básico do marxismo. Eu li três capítulos d'”O Capital”, um do “Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado” (de Althusser), algumas palavras espalhadas de Lênin, e apuds de Gramsci e da Escola de Frankfurt e isso é tudo que eu sei.

Existem três “gradações” de militantes marxistas: os primeiros sabem só o marxismo de Marx. Não avançaram até Lênin. Sabem teoria mas não sabem estratégia. Em seguida, há os que estudaram Lênin e conhecem estratégia marxista. Os que estão no DCE (ou pelo menos os seus capos) estão, majoritariamente, neste grupo. O terceiro grupo, aqueles que conhecem ou Gramsci ou a Escola de Frankfurt são uma minoria, principalmente alunos do IFCH e da Economia que se metem muito pouco com o movimento estudantil e, claro, os grandes ideólogos dos partidos de esquerda que formam sua baixa militância (seus idiotas úteis) nas Universidades.

Quando vejo os debates no movimento estudantil, vejo esquerdismos perdidos. Se os “esquerdistas” estão no primeiro grupo, eles são ignorantes, já que não sabem que o “esquerdismo é a doença infantil do comunismo”. Se estão no terceiro, são estrategistas que usam o esquerdismo para degradar o Estado burguês e, portanto, insinceros, já que dão a impressão de acreditarem naquelas causas. Eu ainda não consigo enxergar uma causa para militantes do segunda gradação defenderem causas esquerdistas, mas que o fazem, isso vejo com os meus olhos. Talvez recebam ordens de seus partidos, a única hipótese que fá-los parecerem com um mínimo de inteligência: não pensam, mas respeitam as ordens de quem pensa.

Pelo fim da maldade no mundo! Pela democratização do amor e da amizade

O título desta seção conclusiva é formado por duas propostas submetidas a Congressos de Estudantes da Unicamp, o que mostra o nível a que os debates caíram. A título de nota, a primeira foi rejeitada, a segunda foi aprovada com algumas alterações. As duas são bizarrices tremendas, a primeira é o desejo gnóstico-revolucionário, a segunda quer dar direitos constitucionais a respeito do amor a todos. Já pensou?

Da atuação dos partidos no movimento estudantil

Eu não preciso falar da torpeza que é a atuação dos partidos no movimento estudantil. Eles formam seus quadros, pagam cursinho, e falam em qual Universidade eles devem entrar. Por exemplo, neste ano três membros do PSOL entraram em Ciências Sociais, vindos de outros cursos da Unicamp. Uma garota, do mesmo partido, entrou em Letras, vinda de outra Universidade. Essa prática também é bastante difundida no PCdoB, e não duvido que aconteça o mesmo no PT, no PSB, no PDT e no PSDB.

Nada é tão maléfico ao movimento estudantil como isso. Se você pega um movimento com pessoas inexperientes, que discutem o que não sabem, mas que são honestas, é possível construir uma militância ética. Quando o compromisso das pessoas não é com os estudantes, mas sim com um partido ou com uma ideologia, não há nada que os estudantes possam fazer se não lamentar, ou, se tiverem força, juntar-se e peitar esses aproveitadores.

Também não preciso falar outra coisa: o que esperar da atuação desses partidos no governo da população, se na briga por um espaço bem menor, os “fóruns do movimento estudantil”, a coisa é tão vil? Que moral têm esses militantes para falar de ética?

Oração

O ensino superior espera ser populado por pessoas inteligentes, por pessoas aptas a ingressar em estudos superiores, o nome mesmo diz. Se não é isso que os militantes querem, a gente discute depois.

A Unicamp é conhecida nacionalmente, quiçá mundialmente por seus méritos na pesquisa acadêmica. Suas vagas são disputadas por alunos de todo o país, que buscam o brilhantismo em seus pares, para terem garantia de um nível de estudo adequado à sua prévia preparação.

Quando você pensa em um movimento político em uma Universidade de tal porte, você esperaria encontrar pessoas inteligentes, estudando a fundo os problemas que debatem, conhecendo o problema em toda sua amplitude, conversando com especialistas das mais diversas orientações e posicionamentos sobre o assunto.

E quando a situação que você encontra é, não apenas diversa, mas oposta a essa, com militantes repetindo discursos de partidos de meia tigela, submetendo-se a Zés Manés em vez de tomarem as rédeas do debate — fazendo jus à formação que deveriam ter –, com estudantes dos últimos anos de humanas não sabendo o básico do marxismo, ou fingindo que não sabem, a desolação não tem tamanho.

O que falei nesta tarde não foi com raiva, não foi para expressar superioridade. Foi algo sincero e repleto de tristeza. Não quero nem imaginar o que acontece nas outras Universidades, pretensamente piores do que a Unicamp. A Verdade liberta, mas nem sempre é agradável.

Tudo que podia fazer quanto a isso foi feito. Escrevi estas linhas. Não quero mudar o posicionamento político de ninguém, só quero honestidade e estudo. Mas sei que só um milagre pode mudar tão deteriorada situação. Rezemos.

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