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Archive for the ‘virtude’ Category

Tigris Pantheræ Oculus

Falava, há duas semanas, da alegria na estafa. E o tema é tão interessante que vou continuar nele.

Rocky (vamos ficar só no primeiro, mas vale pra todos) não teria graça nenhuma se o sr. Balboa começasse espancando e terminasse espancando. A grande diferença de Rocky para os outros filmes de luta até então, é que ele não apanha “para não perder a graça”. Ele apanha porque é fraco, e perde a luta final. Mas vence, porque seu objetivo era simplesmente aguentar os 15 rounds.

Mas, o que interessa, é que ele luta com ardor, mesmo vislumbrando a derrota. E isso que o motiva. Quando em situações ruins, desanimadoras, tiramos vontade do nada para fazer o que temos que fazer, ficamos alegres. Essa alegria de agir na aridez é uma daquelas coisas que “não tem preço”.

Lutar, quando tudo nos tira a vontade, é uma das coisas mais difíceis. A primeira luta a ser vencida é conseguir lutar. Mas essa primeira já tem a sua recompensa. A alegria de começar a lutar quando tudo vai contra nos motiva para continuar lutando. Podemos perder, como Rocky perdeu, mas sairemos vencedores. Viver é lutar, e a vitória está precisamente na perseverança nessa luta, independentemente do resultado final. Buscaremos a vitória até o último instante, e nisso está o nosso cinturão.

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Aquele professor, sentado, assistindo à minha palestra, fez-me a pergunta mais difícil. Ele morreu há exatos um mês e um dia. Naquele fim-de-semana em que ele morreu, e em que eu voltei a viver, descobri a resposta. E ele também, na Glória da onisciência divina.

Francesco Langone foi um professor exemplar, um sorriso sempre cativante, exemplo de reta conduta, trabalho duro, ordem, amor pelos alunos e pela ciência. No dia em que ele faleceu, ofereci-lhe várias pequenas obras. Ele retribuiu-me com o mês mais consciente de minha vida. Se eu não acreditasse no post mortem, e na comunhão dos santos, ainda assim poderia dizer que ele pode inspirar a humanidade com seu exemplo, com tudo o que viveu. Mas ele pode muito mais que isso hoje. Pode interceder por todos aqueles que, como ele, querem salgar o mundo com trabalho e alegria.

Requiescat in pace, Francisce!

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Um comentário breve: é assaz importante que estejamos atentos ao que a realidade nos diz. Na vida acontecem pequenos eventos, muitas vezes marginais, mas que podem servir de régua da nossa moral. Que servirão para sabermos se estamos no caminho certo, como placas que encontramos numa estrada que, mesmo sem dizer exatamente onde estamos, servem a confirmar o nosso caminho. Essa docilidade aos acontecimentos, às vezes até ruins, é condição indispensável para uma vida virtuosa.

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Correndo, não aguento mais, não vou conseguir terminar o trecho. Bota Pantera pra tocar. Empurra que vai. Chega. Consegui.

Se não fossem esses momentos, nenhum jogging valeria a pena. O exercício só vale a pena na estafa. Só vale a pena quando você não consegue — ou acha que não consegue — passar de certo limite e se mostra enganado, quebrando-o. A vitória nos alegra, e nos motiva para a próxima vez. Mas é a possibilidade da derrota que nos motivou desta.

Mas não é a endorfina o segredo de tudo. Às vezes parece que só tem proveito aquele “restinho” que achávamos que não íamos conseguir. Aqueles cinco minutos a mais de estudo, na estafa, que nos fizeram entender a matéria da prova, aqueles dez minutos a mais de trabalho no desânimo que resolveram o nosso problema. Sertillanges fala algo como isso, que só o estudo “martirizante” que nos leva a aprender algo.

A zona de conforto nada nos dá. É só quando saímos dela que ganhamos algo. Se, ao fazer musculação, eu não sinto dor, não vou ganhar músculos. “No pain, no gain“, já dizia o maior professor de fisicultura (sim, o Arnold é professor universitário) que já existiu. Se eu quero que meu músculo cresça, eu tenho que “mostrar pra ele” que a força que ele tem não é suficiente. E eu faço isso exigindo dele mais do que ele pode aguentar. Se eu quero aprender algo novo, eu tenho que estudar aquela parte que dói (dói não perdeu o acento, né?), que não entra na cabeça de jeito nenhum. Na prática, é isso que eu não sei, o resto eu já sabia e apenas lembrei.

Continuemos: se eu quero crescer moralmente, eu tenho que fazer aquela coisa que é devida, mas que me repugna: pedir desculpas a alguém que eu morra de vergonha de fazê-lo, levantar da cama enlevado pela “melhor parte” do sono.  Temos ajudas, naturais (como botar Pantera no iPod) e sobrenaturais, quando temos a disposição, o assentimento, em passar dos nossos limites.

Ou do que acreditávamos ser limites.

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Viri Galilæi, quid statis aspicientes in caelum?

A solenidade da Ascensão do Senhor, celebrada ontem, é minha festa litúrgica favorita. Por vários motivos, um deles sendo a ela ter sido composta a mais bela polifonia de todos os tempos por Palestrina. Outro é a quantidade de mistérios que ela encerra. Toda a economia salvífica parece que está presente nesse episódio. Mas não é disso que eu quero falar.

Os discípulos ficaram olhando pra ascenção, babando, “admiramini“. Eis que chegam dois anjos e os avisam, não é para ficar babando, tudo segue como dantes. E eles voltam a Jerusalém, cum gaudio magno, pra continuar cumprindo o seu dever. Para uma pessoa cristã, a vida piedosa deve ser alimento. Ao beber das fontes sagradas, ao contemplar e adorar a Deus, isso deve enchê-la de energias (sem nova era, pelamordedeus!) para cumprir os seus demais deveres, para encontrar o sentido de sua vida e viver segundo ele, sem adiamento nem fugas. E é a isso que nos impele a Ascensão.

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Suite Charlotte Pike é uma grande canção. O que mais me surpreende nela é a alegria verdadeira que ela exalta. Escute os primeiros dois minutos or so:

Repare como a banda ri e se diverte (o áudio, claro, ignore o vídeo) ao fazer a sua jam. Perceba a alegria das hamonias.

Estão cumprindo o seu dever. Viram que seu papel no mundo é ser músicos. Inspirar a mesma alegria que têm nos outros. Outros sentimentos, outras vontades, entreter, virar assunto, e tudo que um bom músico pode fazer pelos demais. Na gravação, um processo por vezes tedioso, é difícil manter-se com uma disposição viva. Muitas gravações se tornam “foscas”. Mas, para quem tem uma determinada virtude, isso não ocorre.

Essa virtude é a esperança. A esperança não é querer ganhar uma geladeira do Sílvio Santos, como se acreditou em grande parte dos anos 80. Esperança, colocada da forma mais simples que eu consigo, é a plena certeza de que a verdade é boa e o erro é ruim. A esperança nada mais é que a identificação entre bem e verdade, entre ἀγαθία e ἀληθῆ. Viver na verdade torna-nos felizes, viver na mentira nos deprime. Ao viver na verdade, isto é, cumprir o nosso dever, deve surgir uma profunda alegria.  É uma confiança na justiça, pois fazendo o bem, tornar-nos-emos felizes.

A esperança não é plena sem a fé. E a fé não é plena sem esperança. Fé não é crendice, fé não é superstição, fé não é acreditar cegamente. Fé é confiança. Confiança no quê? Na verdade. Mas isso não é a mesma coisa que a esperança? Quase.

A fé consiste em saber o que é verdadeiro e o que é falso. E temos que confiar em diversas coisas que podemos atestar mas não comprovar. Atravessamos pontes sem saber engenharia civil, e não nos detemos perante elas até ter certeza de que sua estrutura nos aguentará. Vivemos sem ter prova matemática de que nossos sentidos nos dão a exata percepção do mundo. Mas a razão nos diz que é melhor nos nossos sentidos do que duvidar deles. Melhor confiar na ponte que não chegar a Niterói ou à USP. A razão sustenta a fé e, sem termos fé, não chegamos a conhecimento algum: a fé sustenta a razão.

Sem saber o que é verdadeiro nem falso (sem ter fé) não podemos esperar receber benefícios de viver segundo a verdade, pois sequer a conhecemos: não teremos esperança. Sem ter confiança em que a verdade é boa (sem ter esperança), jamais poderemos conhecê-la (nem confiar nela), pois só buscamos (e confiamos em) aquilo que é bom: não teremos fé. E é isso, uma vida verdadeiramente feliz depende da fé e da esperança. E a felicidade faz nascer a alegria verdadeira. A fé e a esperança não se perdem, porque são tautológicas. A verdade é verdadeira (óbvio) e a verdade é boa (óbvio), mas às vezes nos esquecemos disso.

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Educação moral é um termo que faz algumas pessoas (principalmente aquelas na meia-idade, que tiveram aulas e mais aulas de “educação moral e cívica”, que não era educação moral nem educação cívica) tremerem. “É coisa de militares”, “de reacionários”, “de beatas”, et cetera. Concordo em parte, educação moral não é coisa pra se ensinar em escola, muito menos do jeito que se ensinava por estas bandas.

A educação moral é dada por familiares, por amigos, e pela vida mesma. São eles, e nenhuma escola, que incitarão o amor pelo bem, ensinando a “pegar gosto” pelas coisas boas. Não canso de citar o Julio Lemos:

«Veremos que o melhor é ser melhor: crescer em cada uma das virtudes, até os mínimos detalhes, aprendendo a ter prazer naquilo que é bom, e não naquilo que agrada só aos sentidos. § O resto é picaretagem.» (LEMOS, J., Feliz Nova Dieta: Futher details on how to get ICEMAN on your license plate, Blogspot: Blogger, 1997.)

Não deixe de ler o Raubkapitalismus, dele também, também. Essa “educação moral” faz nascer no educando outra virtude, que consiste no agir segundo a fé e a esperança. E não citarei seu nome para não cair no mais antigo clichê que já inventaram.

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Fulaninho faz cara de tristonho pra Ciclaninha e fala: “tô arrependido”. Ciclaninha acredita, e eles são felizes para sempre.

Ache alguma verdade na frase acima.

Acertou quem falou que não há nenhuma verdade. Nem Fulaninho se arrependeu, nem Ciclaninha acreditou, mas ficou com medo de ficar encalhada, com uma vida assim não foram felizes, muito menos para sempre. Fulaninho sequer tristonho ficou. E, o mais importante, arrependimento não tem nada a ver com tristeza.

O arrependimento tem mais a ver com o intelecto que com os sentimentos. O arrependimento brota do coração no sentido em que se usava até se descobrir o cérebro. O que chamamos de coração hoje, outrora chamava-se de rins. Do coração viriam os pensamentos (e o sangue) e dos rins os sentimentos (e a urina).

Quando você está arrependido, não lhe brota uma tristeza, um “pô, que triste”, isso se chama escrúpulo, ou, na melhor das hipóteses, ressentimento. Quando você está triste, pode até surgir um “Putz, fiz merda”, mas surge outra ideia junto: “não quero fazer isso de novo”. Repare: é “não quero”, e não “não devo”. Não é uma imposição, nem consideração teórica, é a sua própria vontade. A sua vontade o acusa e o impele.  Quem só acusa é o demônio. Quem só obriga é o tirano. Só a vontade livre (e só é livre se está plenamente submissa à Verdade) pode acusar e impelir. Se obriga, obriga apenas moralmente.

Você percebe o que é o arrependimento quando se dá conta dos seus erros, mesmo que não seja logo em seguida, sabe que são erros, odeia-os, pensa em como não repeti-los, age e para de pensar no assunto. Se o erro causar dor e o fizer chorar, sabe que o choro não é arrependimento. Rapidamente o engole, e bebe as lágrimas como se fossem um Red Bull.

Não brotou uma lágrima daquela torpeza que você fez? Melhor assim, fique só com a melhor parte. Rabo entre as pernas é coisa de cachorro. Lamúrias são coisas de mulherzinha (e só as zinhas mesmo; ou acaso consegue você imaginar a deusa Vênus, arquétipo do feminino, a se lamuriar?). Homens (e mulheres) trabalham, agem.

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São Tomás de Aquino não tinha o Google. Nossas bisavós não tinham telefone. Einstein não tinha periódicos acessíveis por um índice eletrônico. O que faríamos sem forno, sem microondas, sem internet, sem computador, sem máquina de lavar, canalização de água, de esgoto, sem revólveres, sem telefone, telégrafos, aviões?

Muita coisa.

É da folga moderna ficar limitado pelos meios. Podemos render mais que São Tomás de Aquino em suas pesquisas. Rendemos? Podemos derrotar, com uma arma de fogo, mais inimigos que Joanna D’Arc. Derrotamos?

Estava a ler “A Vida Intelectual”, do famoso Pe. Sertillanges, e ele comentava sobre a vida em família. A edição que tenho é da década de 40. Falava que se juntava a família em calma à noite, para ter um breve colóquio, às vezes o esposo tomava uma obra filosófica para ler e meditar, enquanto a família lhe fazia companhia silenciosa e tranquila. Na hora me veio à mente: “ele fala isso porque à época não existia televisão, que maravilha!”.

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Escuso-me da falha na semana passada, e não sei se manterei postando sempre às segundas-feiras. Mas apareçam, meus dois leitores, na próxima segunda-feira.

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Algumas pérolas lapidadas e alguns diamantes polidos:

“Será sensato, será normal deixar o investigador no gabinete de trabalho, ter assim duas almas: a do trabalhador e a do homem folgado que circula?” — Sertillanges

“Viver na presença de Deus é viver na presença da Verdade. Não só saber que Deus o vê mas também ver a Deus nas verdades manifestadas no mundo”

“Não haveria um só pagão, se nós fôssemos verdadeiramente cristãos” — São João Crisóstomo

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Lendo o Novo Testamento, reparei que quase todas as curas de paralíticos e ressurreições são seguidas de trabalho por parte do beneficiado. A sogra de Pedro foi ressuscitada e passou a servir os apóstolos. O mesmo Pedro mandou Enéias “arrumar-se” depois de curar-lhe a paralisia das pernas.

Não adianta nada, e nisso os ateus estão certos, ficar pedindo milagres em vez de trabalhar para alcançar o que se quer. Os dons do Sabedoria (como Salomão chamava a terceira pessoa) são gratuitos, mas ela quer que façamos jus a eles. Para que fazer-nos andar se for para ficar parados? Para que nos ressuscitar se é para não servir aos outros? Para que nos dar inteligência se não para usá-la para o bem? (não esse “sou do bem” descolado de hoje em dia, que até o Suplicy consegue ser, mas aquele bem que os gregos identificavam com a verdade e a beleza)

Para solucionar o natural, não receberemos milagres não. Quererá Deus que usemos todos os milagres que já recebemos: a vida, a saúde, a força, a inteligência. Tudo isso são milagres. E, quando sobrevierem necessidades sobrenaturais, o milagre terá que ser retribuído de nossa parte, se não de nada adiantará.

E Deus, ao contrário de nós, não perde tempo.

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