A Irmã Morte (como o Chico a chamava) é uma grande amiga. Ela nos ensina uma coisa simples, mas importantíssima: a responsabilidade. Quem me mostrou isso foi o Viktor Frankl, no seu excelente “Man’s Search for Meaning” (Em busca de sentido, em português”. Só porque morremos, porque temos prazo de validade, é que devemos ser responsáveis. Temos um prazo a cumprir, e por isso não podemos ficar na rede. Aliás, só faz sentido medirmos dias, meses, horas, minutos porque um dia morremos, vamos embora. Se vivêssemos para sempre, qual seria a utilidade disso?
O que dura para sempre prescinde do tempo, e esse é o grande segredo da eternidade. O Amor, por exemplo, não foi criado, não tem prazo de validade, ele simplesmente existe. A nossa existência não é simples. Sejamos cristãos, ateus ou da cabala discordiana da sagrada fanta uva, sabemos que somos criaturas, mas que o amor não é. (Essa é a prova racional de que Deus é Amor. Prove que Deus existe, e que é criador e único. Agora prove que o Amor é eterno. Se é eterno, não foi criado, e se não foi criado, é o Deus Criador).
Quando perdemos a noção da morte (e atualmente, pelo menos onde vivo, perdeu-se bastante), tornamo-nos irresponsáveis. Se achamos que viveremos para sempre, não cumprimos com o nosso dever, não encontramos (e aí era onde o Frankl queria chegar) o sentido da nossa vida. Porque ela tem um sentido, e só podemos considerar-nos plenamente libertos quando o encontramos.
Se eu morresse amanhã (já dizia um poeta), eu olharia pra trás e falaria o quê? O que eu poderia dizer que fiz, que cumpri, que ajudei? Deus ia olhar pra minha cara de “me dá uma escala no purgatório” e ia falar: “o purgatório é para os bonzinhos, nem isso você foi. Vai pro inferno, literalmente”. E a ira de Deus seria justa. Não propriamente o medo do inferno, mas a noção de que há Justiça e que um dia morrerei (e pode ser amanhã) que me impele raras vezes para que eu viva dignamente. Deveria eu pensar mais na morte.
Quem acha que viverá para sempre, seja numa auto-enganação, seja não pensando no assunto por medo, seja crendo em baboseiras como a reencarnação (uma maneira de dar alguma cara de possibilidade para a inepta e vagabunda vida pra sempre, ou de afastar o medo da eternidade), perde o aspecto do tempo, e está muito mais sujeito a desperdiçá-lo do que alguém que tem plena consciência da vida única. Há de se lembrar, contudo, que a “vida pra sempre” é bem diferente da vida na eternidade. Esta é a nossa vocação humana, contemplar o tempo, o espaço e a beleza. E, para que possamos cumpri-la, precisamos tomar consciência dela através da ajuda da nossa amiga morte.





Um dos melhores posts Luís. Tenho lido muita coisa por aqui mas nunca quis comentar. Este post, no entanto, não pode ficar sem comentários. Penso na morte o tempo todo. Não da forma como o A. de Azevedo pensava. Penso na morte não com uma obsessão mórbida. Penso na morte porque acho que é a melhor forma de estarmos vivos. É como você falou: se morrermos amanhã? Que fizemos? Como seremos lembrados? Valeu a pena ter vivido? São muitas perguntas que em vez de suscitarem respostas parece que cria várias outras perguntas que não se esgotam jamais.
Responsabilidade diante da vida. Você foi ao ponto. E pelo que leio neste blog, a despeito do que você pense sobre si próprio, acredito que você conhece a História da Humanidade_ os Santos inclusos_ de uma forma que dá, com certo empenho, para levar uma vida muito digna.
Ademais_ eu, que sou leitor e profundo admirador do Júlio Lemos, com quem tenho aprendido muitas coisas e de cujos posts, assim como você, saio muito melhor depois da leitura do que quando começo, e com quem troco e-mails e pretendo conhecer “presencialmente”, essa coisa toda_ vim descobrir no seu blog as chaves pra entender certos posts do Júlio Lemos. Acredito que pelo fato de você ter o privilégio de ser amigo dele, você tem condições melhores do que qualquer um outro de “lançar luzes” sobre certas coisas que ele escreve. O exemplo mais significativo pra mim, foi o belíssimo post que você escreveu explicando de forma clara, límpida, lapidar, a diferença entre represar apetite sexual e reprimir. Você não tem idéia do quanto isso me ajudou. Sou grato a você por isso. E agora este post falando da morte como eu aprendi a entendê-la. Em breve te mando um e-mail para trocarmos umas idéias.
Grande abraço,
Carlos
Grande Luis!
Já de cara digo: faça um retiro logo. Esse tema – bem como os demais Novíssimos – são tratados com profundidade. É óbvio que a meditação da morte é extremamente salutar, pois ajuda-nos a viver melhor. Parece um paradoxo, e talvez seja mesmo.
Mas, a coisa é um pouco anterior à morte. O grande ‘fato’ da existência é o sofriumento e, mais do que isso, nosso conhecimento dessa dor. O encontro com o sofrimento é um encontro com a vida – Vida! – e não com a morte. É o momento onde ‘cai a ficha’, justamente por sabermos que aquela imagem ridícula que criamos, devido à soberba, não vale nada. Uma dor aguda e o ‘Rodolfo’ dos meus delírios pessoais rui, diante de um corpo debilitado que não pode fazer nada por si próprio. E aí não tem jeito: ou somos humildes e reconhecemos tal como somos (criaturas de barro), ou piramos na batatinha.
Ja escrevi demais, o assunto é assaz profundo. Abraços!
Grande Luis!
Já de cara digo: faça um retiro logo. Esse tema – bem como os demais Novíssimos – são tratados com profundidade. É óbvio que a meditação da morte é extremamente salutar, pois ajuda-nos a viver melhor. Parece um paradoxo, e talvez seja mesmo.
Mas, a coisa é um pouco anterior à morte. O grande ‘fato’ da existência é o sofriumento e, mais do que isso, nosso conhecimento dessa dor. O encontro com o sofrimento é um encontro com a vida – Vida! – e não com a morte. É o momento onde ‘cai a ficha’, justamente por sabermos que aquela imagem ridícula que criamos, devido à soberba, não vale nada. Uma dor aguda e o ‘Rodolfo’ dos meus delírios pessoais rui, diante de um corpo debilitado que não pode fazer nada por si próprio. E aí não tem jeito: ou somos humildes e reconhecemos tal como somos (criaturas de barro), ou piramos na batatinha.
Ja escrevi demais, o assunto é assaz profundo. Abraços!
[...] Mas vou deixar uma sugestão de texto: È morto. Andiamo. [...]
Lu,
Eu quero ser igual vc quando eu crescer. Posso?!
Caraca, este teu texto foi ins-pi-ra-dís-si-mo!
De fato, nunca foi tão real e tão paradoxal ao mesmo tempo pensar na morte para se viver melhor.
Excelente artigo. Vou pensar mais sobre isso.
Há vida inteligente na internet!!!
[...] Serenidade: Conhecer o melhor possível a morte, e deixar de ter medo dela, é condição indispensável para o homem. Como já disse, o home que ousa enfrenta riscos, e vai ficar se borrando todo se não souber enfrentar a morte com serenidade. [...]
Bom post. Sabe onde poderei adquirir livros de Viktor Frankl (em língua portuguesa). Gostaria de aprofundar o conhecimento de Viktor Frankl. Infelizmente as edições que existem aqui em Portugal deste autor, já não se encontram à venda. Se tiver outras sugeestões, agradeço-lhe. Obrigado.
Alguém pode ajudar o gajo?