“τοὺς δὲ ἀληθινούς [φιλοσόφους], ἔφη, τίνας λέγεις;
τοὺς τη̂ς ἀληθείας, ἠ̂ν δ’ ἐγώ, φιλοθεάμονας.”
Plato. Platonis Opera, ed. John Burnet. Oxford University Press: 1903. (República, livro V, parágrafo 475[d])
O “filósofo da cidade de São Paulo”, Paulo Ghiraldelli Jr., comprou uma briga com o filósofo Olavo de Carvalho porque este último diz que os filósofos, para Platão, são os amantes do espetáculo. Segundo Paulo, Platão diz precisamente o contrário: distingue em categorias distintas os amantes de espetáculos e os filósofos. Para corroborar sua tese, lança mão do parágrafo 476(a) do Livro V d’A República, em que Platão opõe o filósofo ao homem prático, que coloca como amante das artes e do espetáculo:
καὶ περὶ* δὴ δικαίου* καὶ ἀδίκου καὶ ἀγαθου̂ καὶ κακου̂ καὶ πάντων τω̂ν εἰδω̂ν πέρι ὁ αὐτὸς λόγος, αὐτὸ* μὲν ἓν ἕκαστον εἰ̂ναι, τῃ̂ δὲ τω̂ν πράξεων καὶ σωμάτων καὶ ἀλλήλων κοινωνίᾳ πανταχου̂ φανταζόμενα πολλὰ φαίνεσθαι ἕκαστον.
ὀρθω̂ς, ἔφη, λέγεις.
ταύτῃ τοίνυν, ἠ̂ν δ’ ἐγώ, διαιρω̂, χωρὶς μὲν οὓς νυνδὴ ἔλεγες φιλοθεάμονάς τε καὶφιλοτέχνους καὶ πρακτικούς*,
A tradução em Inglês, escolhida por Paulo Ghiraldelli é a seguinte:
“Of course.” “And since they are two, each is one. ” “That
also.” “And in respect of the just and the unjust, the good and the
bad, and all the ideas or forms, the same statement holds, that in
itself each is one, but that by virtue of their communion with actions
and bodies and with one another they present themselves everywhere,
each as a multiplicity of aspects.” “Right,” he said. “This, then,”
said I, “is my division. I set apart and distinguish those of whom you
were just speaking, the lovers of spectacles and the arts, [and men of action]“
Por ora, parece que ele está certo. Platão segue, através de Sócrates, a definir o filósofo. E, na mesma toada, coloca que enquanto o homem prático admira as coisas belas, o filósofo as transcende para admirar o belo. Vamos ao que o Olavo diz:
Pois bem, a palavra “transcende”, que usei propositadamente, serve a mostrar que o filósofo se usa do espetáculo belo para chegar à beleza mesma (recomendo a todos que vão à República no livro V e tirem as próprias conclusões do trecho). Então ele não é exatamente um “amante do espetáculo”, mas também não o rejeita. Ele o ama enquanto ele serve para chegar à essência, ao ideal do belo.
Que palavra usa Platão para se referir ao “amante do espetáculo”? É φιλοθεάμονάς , um particípio que contém a raiz de “amar”, “amor” (φιλο – filo), e de “colocar”, “pôr”, “mostrar” (θε – the), de onde vêm “teatro”. Daí “amante de espetáculo”, que é a melhor tradução que acredito podermos chegar em Português. Se você sabe Grego ou Inglês, você verá, como já disse, que Platão de fato opõe o amante do espetáculo ao filósofo. Mas, se você voltar apenas um parágrafo, verá a citação que abre este artigo. A tradução, arriscada por mim, é a seguinte:
“Quem dizes — dizia ele — que são os verdadeiros [filósofos]?
Aqueles que da verdade — disse eu — amam o espetáculo.”
Ora, 1) Platão de fato chama os filósofos de amantes do espetáculo, usando a mesma palavra (φιλοθεάμονάς), no parágrafo anterior; 2) Em breve, Platão coloca que o filósofo “transcende” o espetáculo (e portanto, não o nega, apenas o supera). Paulo Ghiraldelli cita comentadores, trechos em Inglês, divaga por longos períodos em um texto mal escrito para querer provar uma coisa que eu só preciso usar “compreensão de texto” para ver que ele está errado. Ô perda de tempo!
Post scriptum (valeu a dica, Moreno e Rafael):
Eu havia escrito este texto na segunda-feira à tarde. Após o True Outspeak achei desnecessário publicar. Meus amigos recomendaram-me que mantivesse a publicação, já que o Paulo Ghiraldelli respondeu ao Olavo novamente, com mais perda de tempo. Se quiser acompanhar a contenda, também informo os links:
http://www.blogtalkradio.com/olavo





Pereira,
muito bem colocado.
O tal do Paulo Ghiraldelli é um sujeito verdadeiramente desprezível. A continuação do “”debate”" está hilário, nojento, porco, e muitas coisas mais. Quanta mediocridade!
Abração! Parabéns pela clareza da análise.
Eu faria o seguinte comentário no blog do sr. Ghiraldelli:
”
Caro sr.,
Por que, em vez de ficar discutindo sobre traduções o senhor não vai ao Grego? A palavra nos parágrafos 475d e 476a é a mesma, a saber, φιλοθεαμονας (acentos omitidos). Por que a mesma palavra deve ser traduzida de maneira diferente?
”
Mas os comentários são abertos apenas para membros do blogue. Ô medo!
Esse Ghiraldelli não é o tal “fiofósofo” da cidade de São Paulo?
O próprio, Carlos Eduardo…