Tomemos a música popular. As modas de viola falam de amor, amizade, companheirismo, o trabalho cotidiano de boiadeiro. O samba outrora falava da situação social, de amores, de reflexões sobre certos sentimentos. A bossa nova fala de romances, paixões, mulheres, canções. O axé é um "manual de instruções" de como dançá-lo. O funk carioca, hoje, fala de pornografia, talvez seja melhor chamar de pornofonia.
E depois dizemos que estamos nos civilizando. Melhor seria, como Gilberto Freyre, dizermos que estamos nos sifilizando.
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Alguns escritores fazem descrições físicas tão bem feitas que podemos imaginar suas cenas com quase perfeição, como se as víssemos perante nós. São raros, mas há um punhado por aí, aparecem esporadicamente e, se procurarmos bem, encontramos.
Mas Machado de Assis vai além, e muito. Ele descreve sentimentos de forma tão perfeita que chegamos a sentí-los. Não é uma empatia (ou simpatia, como deveria ser pela etimologia). Empatia temos com certos personagens, como tive por um de Graciliano e outro de algum outro autor. Essa empatia nos faz simpatizar com suas emoções, e sentirmos, junto com o personagem, cada paixão (de pathos) descrita.
Não, Machado não é assim, não é necessário simpatizar, os sentimentos são descritos de tal forma que nos tomam junto, fazendo da leitura uma experiência muito maior. E não pára por aí, a descrição caracterológica é tão minuciosa, que parece impossível a gênese daquelas criaturas fictícias tão reais. Se tudo isso não bastasse, Machado cava nas profundezas do sentimento humano, dando nome ao inominável, descrevendo coisas que algum dia sentimos e nunca pensamos ser capazes de explicar, quanto mais descrever.
Precisava dizer tudo isso a seu respeito. E faltou muito para falar de sua grandeza, mas eu não sou Machado de Assis para fazê-lo.
Obrigado por me ler, e até mais!




